Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
O que significa ser filha?
Quando pensamos em uma relação afetuosa entre pai e filha, pensamos na liberdade de chegar perto, contar o que dói e encontrar alguém disposto a escutar. É poder mostrar a fragilidade sem receio de perder o amor. Mesmo para quem não viveu esse acolhimento, o desejo de ser reconhecida e cuidada pode permanecer.
Na nossa relação com Deus, esse desejo também encontra palavras, sobretudo quando atravessamos algum sofrimento da alma. A tristeza, a espera e a dificuldade de compreender o propósito do que estamos vivendo fazem surgir perguntas que se repetem:
“Por que estou passando por isso? Que caminho devo seguir? Até quando vai doer?”
Nessas horas, questionar pode ser uma maneira de procurar o Pai e pedir sua presença quando as respostas nos faltam. Conhecemos a promessa do seu amor, mas ainda precisamos encontrar amparo dentro de nós. E, entre aquilo em que cremos e aquilo que conseguimos sentir, nasce uma pergunta profundamente humana:
“Pai, o Senhor está me ouvindo?”
Foi pensando nessa experiência que duas palavras ganharam sentido para mim: aproximação e permissão.
Posso me aproximar de Deus com minhas dores, emoções, dúvidas e com tudo aquilo que ainda preciso compreender. Diante daquele que me criou, tenho liberdade para deixar cair as máscaras que aprendi a usar para parecer forte, capaz e sempre bem. Posso reconhecer o cansaço e dar nome à tristeza, sem precisar organizar todos os sentimentos antes de falar com Ele.
Quando penso em um pai amoroso, penso em alguém diante de quem uma filha pode chorar. Alguém que escuta e se importa, mesmo quando ela não consegue explicar o que sente. Essa imagem me ajuda a compreender a intimidade com Deus: posso chegar à sua presença com a verdade da minha história.
Nos Evangelhos, Jesus chama de “filha” a mulher que sofria de hemorragia. Em Marcos 5:33–34, ela se aproxima com medo e tremor, conta o que aconteceu e recebe uma palavra de paz. Seu medo está presente naquele encontro, assim como sua fé. Essa passagem me lembra que posso buscar a Deus enquanto ainda estou sofrendo.
Ao me aproximar, posso também me permitir receber cuidado, reconhecer o que precisa mudar e abrir espaço para a ação do Espírito Santo. Chegar como estou é o começo de uma relação na qual posso amadurecer.
A renovação da mente e o amadurecimento espiritual
Romanos 12:2 nos chama à transformação pela renovação da mente. Essa passagem ilumina o caminho que desejo compartilhar: permitir que a relação com Deus transforme nossa maneira de compreender a vida, discernir e agir. Aos poucos, aquilo em que cremos pode encontrar expressão nas escolhas que fazemos, no modo como respondemos às dificuldades e no cuidado que oferecemos a nós mesmas e aos outros.
Em Gálatas 5:22–23, Paulo apresenta o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Essas qualidades dão expressão à transformação espiritual em nossa maneira de viver e de nos relacionar.
Posso perceber esse amadurecimento quando aprendo a responder com mais mansidão, reconhecer meus limites e pedir ajuda. Quando consigo escutar antes de reagir ou receber carinho sem sentir que preciso retribuí-lo imediatamente. A alegria pode reencontrar espaço sem que eu precise esconder a tristeza. A esperança pode crescer enquanto ainda atravesso dias difíceis.
O fruto do Espírito se expressa na vida e nas atitudes; não depende de uma sensação constante de bem-estar. Por isso, sentir-me filha pode amadurecer como uma experiência de pertencimento, mesmo quando minhas emoções oscilam. Na fé que professo, o amor de Deus sustenta esse vínculo, inclusive nos dias em que tenho dificuldade de perceber seu consolo.
Romanos 8:15–16 fala do Espírito que testemunha nossa filiação. Mais adiante, no versículo 26, o mesmo capítulo reconhece nossa fraqueza e a dificuldade que, por vezes, temos para orar. Há espaço para chegar ao Pai quando as palavras faltam. Uma oração sincera pode começar assim:
“Pai, ainda dói. Eu não compreendo tudo o que estou vivendo, mas desejo me aproximar de ti. Ajuda-me a confiar e a receber o teu cuidado.”
Fé, acolhimento e cuidado emocional
Essa compreensão também orienta meu olhar na Clínica do Cuidado e da Presença. Acolher a mulher que sofre inclui respeitar seu tempo, sua história e sua dificuldade de sentir-se amada. A escuta oferece espaço para que ela reconheça suas necessidades e encontre palavras para o que vive. Buscar apoio e cuidar da saúde emocional podem caminhar junto com a oração e a vida espiritual.
“Sinta-se filha” é um convite que também acolhe quem hoje ainda não consegue sentir. A aproximação pode acontecer com lágrimas, perguntas e uma confiança que ainda está amadurecendo. Permitir-se ser cuidada é um movimento possível nesse caminho.
É assim que hoje compreendo esse sentir: um pertencimento que vai encontrando lugar dentro de mim, enquanto me aproximo de Deus e me abro à sua ação. O Espírito Santo amadurece minha fé, renova minha maneira de pensar e transforma meu modo de viver. Nesse processo, posso descobrir novas possibilidades de esperança, mesmo enquanto a dor ainda precisa de cuidado.
Posso chegar como estou. Posso buscar ajuda. E posso permanecer nessa relação, permitindo que o amor de Deus alcance também os lugares em que ainda tenho dificuldade de me reconhecer como filha.
E você? Pare um pouco e escute o que sente hoje. Como tem vivido sua relação com Deus? O que lhe faz falta para sentir-se acolhida como filha? Há alguma dor que ainda não conseguiu colocar em palavras, uma pergunta que guarda em silêncio ou um cuidado que tem dificuldade de receber?
Sem se cobrar por sentir de outra maneira, pergunte a si mesma: que passo posso dar hoje para me aproximar do Pai e me permitir ser cuidada e transformada? Talvez seja uma oração sincera, um pedido de ajuda ou a liberdade de chegar à presença de Deus sem precisar parecer forte.
O que pode começar a mudar quando você se permite chegar como está?
Te vejo na próxima edição, aqui no Entre Afetos e Histórias, na coluna do Portal Fonte Viva.
Com carinho, Entre Afetos e Histórias
Por Márcia Morais Ávila
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