Por Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Uma história que começou dentro de mim
Escrever semanalmente é assumir o compromisso de oferecer ao leitor mais do que informações. É acolher, provocar reflexões e contribuir para ampliar a compreensão da vida.
Nesta semana, procurei uma nova história para compartilhar. Busquei inspiração em diferentes lugares, mas percebi que a narrativa que eu precisava escrever já fazia parte da minha própria trajetória.
Foi então que compreendi a importância de revisitar a nossa história e reconhecer os afetos que permaneceram nela. Alguns nos ajudam a entender quem nos tornamos. Outros podem servir de esperança para quem hoje enfrenta desafios semelhantes aos que um dia também vivemos.
A vida é construída por escolhas, decisões e posicionamentos. Quando entregamos nossos planos a Deus, não deixamos de assumir responsabilidades. Pelo contrário: buscamos discernimento para caminhar com mais sabedoria.
"Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos."
Provérbios 16:3
Foi esse entendimento que me levou a revisitar textos escritos ao longo da minha caminhada profissional. Não apenas para relê-los, mas para reconhecer o quanto o conhecimento, a experiência e a fé transformaram minha maneira de compreender o ser humano.
Olhar para o passado sem medo
Durante muitos anos trabalhei na comunicação, no rádio e no audiovisual. Sempre gostei de contar histórias, mas havia algo curioso: raramente assistia ou ouvia aquilo que eu mesma produzia.
Talvez existisse o receio de encontrar imperfeições. Talvez fosse difícil reconhecer que eu também havia realizado um bom trabalho.
Com o tempo compreendi que evitar o passado não elimina aquilo que vivemos. Apenas adia perguntas importantes.
A renovação da mente começa quando deixamos de fugir da nossa própria história.
"Transformem-se pela renovação da sua mente."
Romanos 12:2
Renovar a mente não significa apagar lembranças. Significa olhar para elas com novos recursos emocionais, espirituais e intelectuais.
Cada experiência pertence à pessoa que éramos naquele momento. Hoje podemos revisitá-las sem permanecer presas a elas, mas aprendendo com tudo o que vivemos.
As memórias também se transformam
Durante muito tempo imaginou-se que o cérebro armazenava memórias como quem guarda documentos em gavetas. Hoje sabemos que o funcionamento é muito mais complexo.
As lembranças são reconstruídas continuamente. Emoções, contexto, significado e experiências influenciam a maneira como registramos e recordamos acontecimentos.
Algumas memórias permanecem claras. Outras aparecem por meio de emoções, reações automáticas ou padrões que repetimos sem perceber.
A Psicanálise nos ajuda a compreender que determinados conteúdos permanecem fora da consciência enquanto ainda não conseguimos integrá-los à nossa história.
O processo terapêutico não busca simplesmente recuperar um passado intacto. Ele oferece um espaço seguro para atribuir novos significados às experiências vividas.
Ao mesmo tempo, a Neurociência amplia nossa compreensão sobre aprendizagem, mudança e neuroplasticidade.
Para mim, fé e ciência não competem.
A Neurociência explica processos importantes do funcionamento humano. A fé oferece direção, propósito, esperança e sentido para a existência.
"Nós, porém, temos a mente de Cristo."
1 Coríntios 2:16
Ter a mente de Cristo significa aprender a interpretar a vida segundo os valores e ensinamentos de Jesus.
Quando reorganizar a vida parece aumentar a bagunça
Muitas vezes a vida se parece com uma casa atingida por uma grande tempestade.
Na tentativa de continuar vivendo, guardamos rapidamente aquilo que foi quebrado, escondemos a desordem e seguimos utilizando apenas os espaços que permanecem organizados.
Até que um dia precisamos encontrar algo realmente importante.
Nesse momento torna-se necessário abrir as janelas, mover os móveis e retirar a poeira acumulada.
Durante algum tempo a casa parece ainda mais desorganizada.
Mas não foi a arrumação que criou aquela bagunça.
Ela apenas revelou aquilo que já estava escondido.
É isso que frequentemente acontece na psicoterapia.
O cuidado não produz o sofrimento.
Ele torna possível reconhecer, compreender e reorganizar aquilo que já afetava silenciosamente nossa vida.
A mulher que procurou a moeda perdida
Jesus contou a parábola da mulher que perdeu uma dracma.
Para encontrá-la, ela precisou acender uma candeia e varrer cuidadosamente toda a casa.
"Acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente até encontrá-la."
Lucas 15:8
Essa imagem também nos convida a olhar para dentro de nós.
Quantas mulheres precisam reencontrar a própria identidade, a dignidade, os sonhos interrompidos ou a capacidade de reconhecer o próprio valor?
Muitas assumiram tantos papéis ao longo da vida que esqueceram de cuidar de si mesmas.
A moeda continuava valiosa mesmo estando escondida.
Da mesma forma, uma mulher não perde o seu valor porque atravessou períodos difíceis ou enfrentou sofrimento emocional.
O conhecimento também amadurece
Ao revisitar antigos artigos, encontrei ideias que hoje compreendo de maneira diferente.
Percebi que algumas explicações científicas precisavam ser atualizadas, mas também reconheci que o desejo de integrar espiritualidade, conhecimento e transformação sempre esteve presente na minha caminhada.
Ao longo dos anos, diferentes formações ampliaram meu olhar.
A Teologia fortaleceu minha compreensão da dimensão espiritual.
A Psicologia Pastoral aproximou-me do sofrimento humano.
A Psicanálise revelou a importância do inconsciente.
A Neurociência Afetiva trouxe novas compreensões sobre emoções e comportamento.
A Neuropsicanálise ampliou ainda mais esse diálogo entre cérebro, mente, afetos e espiritualidade.
Esse olhar integrativo não nasceu pronto.
Foi construído ao longo da caminhada.
A saúde mental das mulheres merece atenção
Com a proximidade do Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, somos convidados a refletir também sobre a saúde mental das mulheres.
São mulheres que cuidam da família, dos filhos, do trabalho, da igreja e de tantas responsabilidades que, muitas vezes, continuam funcionando mesmo quando já não estão emocionalmente bem.
Os números mostram o crescimento dos transtornos mentais, mas nenhuma estatística consegue contar completamente a história de uma pessoa.
Há mulheres que choram em silêncio.
Outras perderam a alegria de viver, mas continuam dizendo que estão apenas cansadas.
Algumas sabem acolher todos ao redor, mas ainda não aprenderam a pedir ajuda.
Continuar funcionando não significa estar saudável.
Saúde mental envolve reconhecer emoções, fortalecer vínculos, desenvolver recursos para enfrentar dificuldades e buscar ajuda quando necessário.
Também precisamos afirmar com clareza:
Sofrimento emocional não é falta de fé.
A oração pode caminhar ao lado da psicoterapia.
O acompanhamento médico e o tratamento adequado não anulam a confiança em Deus.
Cuidar da saúde também é reconhecer os recursos que Deus disponibiliza por meio do conhecimento, dos profissionais e das pessoas que caminham conosco.
Revisitar também é cuidar
Ao reler minha própria história, encontrei muito mais do que conceitos que precisavam ser atualizados.
Encontrei a mulher que eu fui.
Encontrei perguntas importantes, conhecimentos adquiridos, experiências vividas e uma fé que permaneceu sustentando cada etapa da caminhada.
Reescrever não significa negar o passado.
Significa reconhecer que continuamos aprendendo.
Talvez você também precise revisitar parte da sua história.
Não para julgar quem você foi.
Mas para acolher essa mulher com a compreensão que hoje possui.
Algumas escolhas precisam ser compreendidas.
Outras precisam ser perdoadas.
Existem histórias que necessitam apenas de novos significados.
Não espere o corpo parar para reconhecer que alguma parte de você está cansada.
Não transforme o sofrimento em segredo.
Tenha coragem de abrir as janelas da sua história e permitir que a luz alcance lugares que permaneceram escondidos durante muito tempo.
Talvez a saúde que ninguém vê seja justamente aquela que mais precisa ser cuidada.
E talvez a renovação da mente comece quando conseguimos dizer, com sinceridade:
"Eu não estou bem, mas estou disposta a cuidar de mim."
Te vejo na próxima edição, aqui no Entre Afetos e Histórias, no Portal Rádio Fonte Viva.
Com carinho,
Entre Afetos e Histórias
Por Márcia Morais Ávila
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