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Quinta-feira, 17 de Setembro 2026
ENTRE AFETOS E HISTÓRIAS

A saúde que ninguém vê: revisitar a própria história também é uma forma de renovar a mente

Revisitar a própria história pode revelar aprendizados, fortalecer a fé e promover uma renovação da mente. A partir da integração entre Neurociência, Psicanálise e espiritualidade cristã, a autora reflete sobre a importância de olhar para o passado com acolhimento, reconhecendo que cuidar da saúde mental também é um ato de fé e responsabilidade.

Márcia Morais Ávila
Por Márcia Morais Ávila
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A saúde que ninguém vê: revisitar a própria história também é uma forma de renovar a mente
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Por Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos


 Uma história que começou dentro de mim

Escrever semanalmente é assumir o compromisso de oferecer ao leitor mais do que informações. É acolher, provocar reflexões e contribuir para ampliar a compreensão da vida.

Nesta semana, procurei uma nova história para compartilhar. Busquei inspiração em diferentes lugares, mas percebi que a narrativa que eu precisava escrever já fazia parte da minha própria trajetória.

Foi então que compreendi a importância de revisitar a nossa história e reconhecer os afetos que permaneceram nela. Alguns nos ajudam a entender quem nos tornamos. Outros podem servir de esperança para quem hoje enfrenta desafios semelhantes aos que um dia também vivemos.

A vida é construída por escolhas, decisões e posicionamentos. Quando entregamos nossos planos a Deus, não deixamos de assumir responsabilidades. Pelo contrário: buscamos discernimento para caminhar com mais sabedoria.

"Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos."
Provérbios 16:3

Foi esse entendimento que me levou a revisitar textos escritos ao longo da minha caminhada profissional. Não apenas para relê-los, mas para reconhecer o quanto o conhecimento, a experiência e a fé transformaram minha maneira de compreender o ser humano.


 Olhar para o passado sem medo

Durante muitos anos trabalhei na comunicação, no rádio e no audiovisual. Sempre gostei de contar histórias, mas havia algo curioso: raramente assistia ou ouvia aquilo que eu mesma produzia.

Talvez existisse o receio de encontrar imperfeições. Talvez fosse difícil reconhecer que eu também havia realizado um bom trabalho.

Com o tempo compreendi que evitar o passado não elimina aquilo que vivemos. Apenas adia perguntas importantes.

A renovação da mente começa quando deixamos de fugir da nossa própria história.

"Transformem-se pela renovação da sua mente."
Romanos 12:2

Renovar a mente não significa apagar lembranças. Significa olhar para elas com novos recursos emocionais, espirituais e intelectuais.

Cada experiência pertence à pessoa que éramos naquele momento. Hoje podemos revisitá-las sem permanecer presas a elas, mas aprendendo com tudo o que vivemos.


 As memórias também se transformam

Durante muito tempo imaginou-se que o cérebro armazenava memórias como quem guarda documentos em gavetas. Hoje sabemos que o funcionamento é muito mais complexo.

As lembranças são reconstruídas continuamente. Emoções, contexto, significado e experiências influenciam a maneira como registramos e recordamos acontecimentos.

Algumas memórias permanecem claras. Outras aparecem por meio de emoções, reações automáticas ou padrões que repetimos sem perceber.

A Psicanálise nos ajuda a compreender que determinados conteúdos permanecem fora da consciência enquanto ainda não conseguimos integrá-los à nossa história.

O processo terapêutico não busca simplesmente recuperar um passado intacto. Ele oferece um espaço seguro para atribuir novos significados às experiências vividas.

Ao mesmo tempo, a Neurociência amplia nossa compreensão sobre aprendizagem, mudança e neuroplasticidade.

Para mim, fé e ciência não competem.

A Neurociência explica processos importantes do funcionamento humano. A fé oferece direção, propósito, esperança e sentido para a existência.

"Nós, porém, temos a mente de Cristo."
1 Coríntios 2:16

Ter a mente de Cristo significa aprender a interpretar a vida segundo os valores e ensinamentos de Jesus.


 Quando reorganizar a vida parece aumentar a bagunça

Muitas vezes a vida se parece com uma casa atingida por uma grande tempestade.

Na tentativa de continuar vivendo, guardamos rapidamente aquilo que foi quebrado, escondemos a desordem e seguimos utilizando apenas os espaços que permanecem organizados.

Até que um dia precisamos encontrar algo realmente importante.

Nesse momento torna-se necessário abrir as janelas, mover os móveis e retirar a poeira acumulada.

Durante algum tempo a casa parece ainda mais desorganizada.

Mas não foi a arrumação que criou aquela bagunça.

Ela apenas revelou aquilo que já estava escondido.

É isso que frequentemente acontece na psicoterapia.

O cuidado não produz o sofrimento.

Ele torna possível reconhecer, compreender e reorganizar aquilo que já afetava silenciosamente nossa vida.


 A mulher que procurou a moeda perdida

Jesus contou a parábola da mulher que perdeu uma dracma.

Para encontrá-la, ela precisou acender uma candeia e varrer cuidadosamente toda a casa.

"Acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente até encontrá-la."
Lucas 15:8

Essa imagem também nos convida a olhar para dentro de nós.

Quantas mulheres precisam reencontrar a própria identidade, a dignidade, os sonhos interrompidos ou a capacidade de reconhecer o próprio valor?

Muitas assumiram tantos papéis ao longo da vida que esqueceram de cuidar de si mesmas.

A moeda continuava valiosa mesmo estando escondida.

Da mesma forma, uma mulher não perde o seu valor porque atravessou períodos difíceis ou enfrentou sofrimento emocional.


 O conhecimento também amadurece

Ao revisitar antigos artigos, encontrei ideias que hoje compreendo de maneira diferente.

Percebi que algumas explicações científicas precisavam ser atualizadas, mas também reconheci que o desejo de integrar espiritualidade, conhecimento e transformação sempre esteve presente na minha caminhada.

Ao longo dos anos, diferentes formações ampliaram meu olhar.

A Teologia fortaleceu minha compreensão da dimensão espiritual.

A Psicologia Pastoral aproximou-me do sofrimento humano.

A Psicanálise revelou a importância do inconsciente.

A Neurociência Afetiva trouxe novas compreensões sobre emoções e comportamento.

A Neuropsicanálise ampliou ainda mais esse diálogo entre cérebro, mente, afetos e espiritualidade.

Esse olhar integrativo não nasceu pronto.

Foi construído ao longo da caminhada.


 A saúde mental das mulheres merece atenção

Com a proximidade do Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, somos convidados a refletir também sobre a saúde mental das mulheres.

São mulheres que cuidam da família, dos filhos, do trabalho, da igreja e de tantas responsabilidades que, muitas vezes, continuam funcionando mesmo quando já não estão emocionalmente bem.

Os números mostram o crescimento dos transtornos mentais, mas nenhuma estatística consegue contar completamente a história de uma pessoa.

Há mulheres que choram em silêncio.

Outras perderam a alegria de viver, mas continuam dizendo que estão apenas cansadas.

Algumas sabem acolher todos ao redor, mas ainda não aprenderam a pedir ajuda.

Continuar funcionando não significa estar saudável.

Saúde mental envolve reconhecer emoções, fortalecer vínculos, desenvolver recursos para enfrentar dificuldades e buscar ajuda quando necessário.

Também precisamos afirmar com clareza:

Sofrimento emocional não é falta de fé.

A oração pode caminhar ao lado da psicoterapia.

O acompanhamento médico e o tratamento adequado não anulam a confiança em Deus.

Cuidar da saúde também é reconhecer os recursos que Deus disponibiliza por meio do conhecimento, dos profissionais e das pessoas que caminham conosco.


 Revisitar também é cuidar

Ao reler minha própria história, encontrei muito mais do que conceitos que precisavam ser atualizados.

Encontrei a mulher que eu fui.

Encontrei perguntas importantes, conhecimentos adquiridos, experiências vividas e uma fé que permaneceu sustentando cada etapa da caminhada.

Reescrever não significa negar o passado.

Significa reconhecer que continuamos aprendendo.

Talvez você também precise revisitar parte da sua história.

Não para julgar quem você foi.

Mas para acolher essa mulher com a compreensão que hoje possui.

Algumas escolhas precisam ser compreendidas.

Outras precisam ser perdoadas.

Existem histórias que necessitam apenas de novos significados.

Não espere o corpo parar para reconhecer que alguma parte de você está cansada.

Não transforme o sofrimento em segredo.

Tenha coragem de abrir as janelas da sua história e permitir que a luz alcance lugares que permaneceram escondidos durante muito tempo.

Talvez a saúde que ninguém vê seja justamente aquela que mais precisa ser cuidada.

E talvez a renovação da mente comece quando conseguimos dizer, com sinceridade:

"Eu não estou bem, mas estou disposta a cuidar de mim."

Te vejo na próxima edição, aqui no Entre Afetos e Histórias, no Portal Rádio Fonte Viva.

Com carinho,

Entre Afetos e Histórias

Por Márcia Morais Ávila

FONTE/CRÉDITOS: Coluna autoral enviada por Márcia Morais Ávila
Comentários:
Márcia Morais Ávila

Publicado por:

Márcia Morais Ávila

Sou Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e a Psicologia dos Hábitos, Neuroeducadora Corporativa e Teóloga. Minha missão é contribuir para a saúde emocional e a comunicação afetiva de mulheres 40+, por meio do Olhar Integrativo dos...

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