Por Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Mais uma vez estamos juntos aqui no Portal Rádio Fonte Viva, em mais uma edição da nossa coluna semanal Entre Afetos e Histórias.
Hoje, gostaria de conversar com vocês sobre a criação do nome que dá identidade a esta coluna, para que possam compreender por que os afetos vêm antes das histórias.
Antes da história, existe um afeto
Tudo começa quando entro em um processo de criação. Criar é um estado de movimento interno, uma descarga de energia emocional que, na Psicanálise, chamamos de libido.
E aqui é importante esclarecer algo: libido não possui apenas uma conotação sexual. Ela representa uma energia psíquica que nos impulsiona a transformar, realizar, construir, sentir e seguir adiante.
Muitas vezes, essa energia torna-se uma importante válvula de expressão das nossas emoções. É justamente nesse ponto que podemos falar sobre os afetos como parte de um sistema emocional que busca constantemente equilíbrio e adaptação diante da vida.
Quando consigo transformar essa energia em criação, ação ou realização, minha história começa a ser construída.
Cada escolha, cada projeto, cada sonho e cada experiência passam a compor os capítulos da minha trajetória.
Talvez seja por isso que os afetos venham antes da história.
Antes de qualquer narrativa, existe uma emoção. Antes de qualquer decisão, existe um afeto. Antes de qualquer caminho percorrido, existe algo que nos move por dentro.
Quando a mente perde a capacidade de seguir em frente
Mas o que acontece quando a criatividade deixa de acontecer? Quando a realização dá lugar à frustração? Quando aquilo que antes nos impulsionava parece desaparecer?
Como especialista em Neurociência Afetiva, observo que, muitas vezes, os afetos encontram-se reprimidos, bloqueados ou desconectados da consciência, enquanto a energia psíquica perde sua capacidade de mobilização.
E quando isso acontece, surgem a estagnação, o desânimo, a falta de sentido e a dificuldade de seguir em frente.
Então nasce uma pergunta fundamental:
O que podemos fazer para reencontrar essa energia quando ela parece distante de nós?
Talvez essa seja uma das questões mais importantes da vida emocional.
Estamos constantemente expostos aos empecilhos, às adversidades e aos desprazeres que a vida nos impõe. E, como cristãos, muitas vezes somos levados a acreditar que tudo ao nosso redor está cooperando para nos afastar de Deus.
Em alguns momentos, chegamos até a pensar que fomos abandonados.
Mas posso afirmar que a Palavra de Deus é santa e contém promessas em cada letra escrita ao longo das Escrituras.
O próprio Jesus declarou:
“Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”
(Mateus 5:18)
E, se você ainda acredita que tudo coopera, a própria Palavra confirma:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”
(Romanos 8:28)
A renovação da mente também transforma a forma de sentir
Não estamos livres das frustrações, das perdas ou dos infortúnios da vida. Porém, podemos compreender melhor como funcionamos biologicamente e como podemos lidar com as nossas emoções.
Podemos identificar o que sentimos, renomear emoções, dar significado às experiências vividas e reconhecer quantas vezes determinados padrões se repetem em nossa história.
Quando fazemos isso, abrimos espaço para que a transformação aconteça.
É justamente nesse ponto que encontramos um princípio poderoso das Escrituras:
“Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
(Romanos 12:2)
Quando compreendemos que Deus deseja renovar a nossa mente e o nosso entendimento, passamos a dar sentido ao que sentimos sem sermos dominados pelas emoções.
Aprendemos que não controlamos completamente aquilo que sentimos, mas podemos aprender a lidar com as emoções de maneira mais saudável e verdadeira.
O cérebro, a respiração e os afetos
É nesse momento que a nossa energia psíquica começa a se reorganizar.
Aos poucos, conseguimos olhar ao redor com mais clareza.
É como respirar.
Quando respiramos de forma calma, sem afobação, sem permitir que as emoções assumam completamente o controle, permitimos que o ar entre em nossos pulmões e forneça ao cérebro o oxigênio necessário para funcionar adequadamente.
Talvez pareça algo simples, mas existe uma explicação importante nisso.
Quando respiramos lentamente, enviamos sinais de segurança ao nosso organismo. O cérebro compreende que não há uma ameaça imediata e pode reduzir os estados de alerta excessivo.
Com isso, tornamo-nos mais capazes de pensar, refletir, elaborar experiências e tomar decisões conscientes.
O medo deixa de ocupar todo o espaço da mente.
A paralisação diminui.
E a energia necessária para continuar seguindo em frente volta a circular.
A libido é reativada e, com ela, a criatividade, a ousadia, a realização e a motivação para transformar a vida voltam a surgir.
A história por trás de todas as histórias
Essa é uma transformação que pode ser observada cientificamente, de maneira concreta e biológica.
E, de certa forma, ela nos lembra aquilo que Deus já nos ensinava por meio da Sua Palavra e aquilo que o Espírito Santo ministra diariamente ao nosso coração.
Talvez, muitas vezes, precisemos apenas permitir que esse processo aconteça.
Permitir que Deus trabalhe em nós.
Permitir que a mente seja renovada.
Permitir que os afetos encontrem novos caminhos.
E permitir que a história continue sendo escrita.
A história é simples.
É esta que estou lhe contando.
A construção da nossa vida, das nossas emoções, experiências e memórias.
A nossa história é única porque, por trás dela, existe uma história maior: a história do Salvador.
Jesus Cristo, que por meio do Seu sangue derramado nos reconciliou com Deus e nos devolveu a vida.
Construímos histórias entrelaçadas pelos nossos afetos. Porque, se não houver primeiro as emoções e os sentimentos, se não aprendermos a sentir, como poderemos deixar ir aquilo que já não nos ajuda a continuar?
Por trás das histórias, construímos vínculos.
E construímos vínculos em todas as histórias.
São os relacionamentos saudáveis que nos oferecem segurança para viver o extraordinário de Deus e experimentar o propósito para o qual fomos criados.
E, mesmo quando esses relacionamentos forem marcados pela tristeza, pelas decepções ou pelas perdas inevitáveis da vida, lembre-se desta verdade:
Deus nunca vai abandonar você.
Talvez essa seja a verdadeira história por trás de todas as histórias.
A história de um Deus que permanece presente.
Que sustenta.
Que transforma.
Que renova a mente, fortalece o coração e continua escrevendo, junto conosco, cada novo capítulo da nossa jornada.
Por que “Entre Afetos e Histórias”?
Agora você entende por que a minha criatividade se concentrou na criação da identidade desta coluna?
Primeiro, precisei reconhecer o que eu sentia.
Depois, compreendi que existia uma história muito maior para ser contada.
Uma história construída pelos afetos, pelos vínculos, pelas experiências e pela fé.
Uma história que continua sendo escrita todos os dias e que desejo compartilhar com cada um de vocês.
Talvez esse seja o propósito para o qual Deus me criou: transformar afetos em palavras, histórias em reflexões e experiências em caminhos de esperança aqui no Portal Rádio Fonte Viva.
Até a próxima edição de Entre Afetos e Histórias.
Com carinho,
Márcia Morais Ávila
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