Por Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Você já parou para pensar que uma pessoa aparentemente escondida dos holofotes pode ser responsável por mudar o rumo da história? Já imaginou que um ato silencioso, realizado longe dos aplausos e do reconhecimento público, pode atravessar gerações e impactar a vida de milhares de pessoas?
Vivemos em um tempo em que a visibilidade é muito valorizada, mas algumas das transformações mais importantes da história aconteceram pelas mãos de pessoas que quase ninguém conheceu. Pessoas que não ocuparam tronos nem estiveram nos palcos. Não receberam homenagens, mas decidiram agir quando era preciso.
Hoje, em Entre Afetos e Histórias, quero trazer a história de uma mulher extraordinária que mudou o destino de um homem e, por consequência, influenciou toda uma geração. Uma mulher cujo nome aparece poucas vezes nas Escrituras, mas cuja coragem ecoa através dos séculos. E talvez o que mais me encanta nessa história seja o fato de que ela também inspirou uma outra mulher: eu.
Ao conhecer a história de Jeoseba, encontrei muitas reflexões sobre os bastidores, o propósito, a força silenciosa e o valor das mulheres que sustentam histórias sem necessariamente ocupar o centro delas. Porque nem todo protagonismo é visível. E nem toda mulher extraordinária está sob os refletores.
Uma história tecida por afetos
Na Psicanálise, aprendemos que ninguém constrói sua história sozinho. Somos formados pelas experiências que vivemos, pelas palavras que ouvimos, pelos afetos que recebemos e pelas pessoas que passaram por nossa vida.
Nossa história não é feita apenas dos acontecimentos, mas também dos significados que damos a eles. Cada experiência deixa uma marca. Cada afeto acrescenta um novo fio. E cada relacionamento importante ajuda a tecer a narrativa que carregamos dentro de nós.
E, no meio dessa trama, existe um fio que sustenta muitos dos outros: o vínculo.
São os vínculos que nos ajudam a crescer, aprender, amar, confiar, enfrentar desafios e encontrar forças para continuar. Talvez por isso a nossa história não seja feita apenas do que vivemos, mas principalmente das pessoas que caminharam conosco ao longo dela.
A Neurociência Afetiva nos ajuda a compreender algo extraordinário: somos biologicamente preparados para criar vínculos. Entre os sistemas emocionais descritos pelo neurocientista Jaak Panksepp existe o sistema CARE, relacionado ao cuidado, à proteção, ao acolhimento e à capacidade de sustentar relacionamentos.
É o afeto que aproxima mães e filhos, fortalece famílias, favorece a cooperação e nos move a cuidar de alguém mesmo quando isso exige esforço e renúncia.
O CARE não é apenas um comportamento. É uma força emocional, uma necessidade humana e uma expressão do amor em movimento. E, quando observamos a história de Jeoseba, percebemos esse afeto em ação.
Quando uma mulher decide proteger uma história
A história de Jeoseba está registrada em 2 Reis 11 e 2 Crônicas 22. O contexto histórico era de crise. Após a morte do rei Acazias, sua mãe, Atalia, tomou o poder em Judá e ordenou a execução de todos os descendentes reais. Era uma tentativa de apagar uma linhagem inteira.
Foi nesse cenário que uma mulher decidiu agir.
O texto bíblico relata:
“Porém Jeoseba, filha do rei Jorão e irmã de Acazias, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei que estavam sendo mortos; e o pôs a ele e à sua ama numa câmara de dormir; assim o esconderam de Atalia, e não foi morto.”
(2 Reis 11:2)
À primeira vista, Jeoseba salvou a vida de um menino. Mas, olhando mais profundamente, ela fez muito mais do que isso.
Ela protegeu um vínculo, preservou uma história, sustentou uma promessa e guardou um futuro.
Jeoseba compreendeu que algumas vidas precisam ser cuidadas e protegidas para que outras histórias possam continuar sendo escritas.
A ousadia que nasce da fé
Jeoseba viveu em uma época em que o poder estava, quase sempre, nas mãos dos homens. Os reis governavam, os sacerdotes lideravam e os exércitos tomavam as decisões. As mulheres raramente ocupavam posições de influência.
Ainda assim, Jeoseba não ficou paralisada diante das circunstâncias.
Ela agiu. Não para aparecer, receber reconhecimento ou conquistar poder, mas porque compreendeu que existia algo maior em jogo. A fé produz esse tipo de coragem. Uma coragem que nasce do propósito e da confiança em Deus.
Quando Deus nos chama para uma missão, Ele também nos fortalece para cumpri-la.
Jeoseba não liderou um exército, mas liderou um ato de proteção, cuidado e preservação da vida. E isso também é uma forma de liderança.
Os bastidores da minha história
Talvez seja por isso que essa história me emociona tanto. Eu também quero contar um pouco da minha história.
Nasci em 1975 e, por volta dos 9 anos, tive uma das minhas primeiras experiências empreendedoras. Meu pai trabalhava em uma fábrica de bolsas e cintos e, com os materiais que sobravam da produção, eu fazia pulseiras de plástico para vender na escola.
Meu objetivo era simples: comprar o meu tão sonhado coração de abóbora.
Hoje percebo que, sem saber, eu já estava aprendendo sobre criatividade, iniciativa e propósito.
Os anos passaram, trazendo desafios, aprendizados e recomeços. Em 1996, consolidava-se minha trajetória profissional na área da comunicação.
Durante décadas trabalhei nos bastidores de rádios, televisões, produções e projetos. Muitas vezes, as pessoas viam o resultado final, mas não sabiam quem escrevia, planejava, dirigia ou ajudava a transformar ideias em realidade.
Mas os bastidores nunca significaram ausência.
Pelo contrário. Foram espaços de construção, aprendizado, propósito e influência.
Hoje, depois de trinta anos de trajetória profissional, continuo nos bastidores de muitas histórias. Agora através da educação, da saúde emocional, da mentoria, da formação de novos profissionais, do acolhimento, do cuidado e da escuta de mulheres que buscam compreender melhor a própria história.
O vínculo que me sustenta
Quando penso em vínculo, não penso apenas em relacionamento. Penso em acolhimento, apoio e segurança. Penso nas pessoas que caminham ao nosso lado e nos ajudam a seguir em frente, principalmente nos momentos mais difíceis.
Ao longo da vida, muitos fios foram sendo entrelaçados na minha história. Alguns foram de alegria. Outros, de perdas, conquistas, desafios e recomeços.
Mas existe um fio que atravessa todos eles: a família.
Foi na minha família que encontrei forças para continuar caminhando. Foi nela que encontrei abrigo quando os ventos sopravam mais fortes e apoio quando algumas respostas pareciam distantes.
E hoje, uma das bases que sustenta a minha vida é a família que construí ao lado do meu marido.
O vínculo é esse lugar onde encontramos consolo, amparo e forças para continuar. É onde descansamos nos dias difíceis e nos fortalecemos para enfrentar os desafios da vida.
As estações mudam. Existem tempos de inverno, de primavera, de verão e de outono.
Nem sempre estamos bem. Nem sempre somos fortes. Nem sempre temos todas as respostas.
Mas seguimos caminhando porque somos sustentados pelos afetos, pelos vínculos, pelas histórias que construímos e pela fé que nos acompanha em cada etapa da jornada.
Nossa trama da vida.
O Consolador e a presença
Enquanto escrevia sobre os vínculos que sustentam a minha vida, lembrei-me de uma das promessas mais bonitas de Jesus.
Ao despedir-se dos seus discípulos, Ele disse:
“E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.”
(Mateus 28:20)
E também prometeu:
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.”
(João 14:16)
Essas palavras me fazem lembrar que Deus nunca prometeu uma vida sem desafios. Mas prometeu algo ainda maior: Sua presença.
Uma presença que consola. Que fortalece. Que acolhe. Que caminha conosco.
Talvez seja por isso que, ao olhar para a história de Jeoseba, para a minha própria história e para a história de tantas mulheres, eu perceba algo em comum: nunca caminhamos sozinhas.
Sempre existe um vínculo que nos sustenta, uma mão que nos guia e uma força que nos ajuda a continuar, mesmo quando o caminho parece difícil.
Os vínculos nos fortalecem. A família nos acolhe. E Deus continua presente em cada capítulo da nossa história.
Seja protagonista da sua história
Ser protagonista nos bastidores não significa apagar a própria história. Não significa viver escondida, desistir dos seus sonhos ou deixar de ser quem você é.
Muitas mulheres exercem um papel fundamental na vida das pessoas ao seu redor. Sustentam filhos, famílias, projetos, sonhos e comunidades. Caminham ao lado dos seus maridos, apoiando, incentivando, orientando e construindo junto.
Somos ajudadoras. Não porque somos menores, mas porque entendemos o valor de caminhar lado a lado.
A Psicanálise nos ensina que compreender a nossa história também é compreender os vínculos que nos marcaram, as experiências que vivemos e os caminhos que escolhemos seguir.
Jeoseba compreendeu isso.
Ela protegeu uma vida, preservou uma história e ajudou a garantir um futuro.
Talvez existam muitas mulheres fazendo exatamente isso hoje. Mulheres que nem sempre aparecem nas fotografias ou recebem reconhecimento, mas sem as quais muitas histórias jamais aconteceriam.
Talvez você seja uma delas.
Porque algumas mulheres mudam a história estando à frente. Outras mudam a história sustentando quem está à frente. E outras mudam a história caminhando lado a lado.
Todas têm valor quando compreendem o propósito para o qual foram chamadas.
Até a próxima edição de Entre Afetos e Histórias, aqui no Portal Rádio Fonte Viva.
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Entre Afetos e Histórias
Por Márcia Morais Ávila
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