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Sexta-feira, 19 de Junho 2026
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ENTRE AFETOS E HISTÓRIAS

Quando a dor fala sobre quem amamos: memórias, afeto e a cura que nasce da honra

Uma reflexão sobre marcas emocionais, trauma religioso e o poder transformador do amor e da honra familiar.

Márcia Morais Ávila
Por Márcia Morais Ávila
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Quando a dor fala sobre quem amamos: memórias, afeto e a cura que nasce da honra
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 Por Márcia Morais Ávila

Hoje vou contar a história de uma menina que havia encontrado Deus poucos anos antes. Ela acreditava profundamente no acolhimento que havia recebido naquela comunidade de fé. Depois de viver suas próprias inseguranças e experiências de rejeição afetiva, imaginava que aquele seria um lugar onde as pessoas seriam vistas pelo coração — e não pelo histórico, sobrenome ou origem.

Mas a vida nem sempre acontece da forma como esperamos.

Será que você já passou por uma situação que aconteceu há muitos anos, mas que ainda parece viva dentro de você?

Existem dores que deixam marcas profundas. Lembranças que permanecem guardadas na memória como pequenas agulhas escondidas em um recipiente de palitos. Quase não nos lembramos delas no dia a dia, mas basta tocar naquele lugar para que a dor reapareça.

Talvez eu esteja falando por metáforas, mas é assim que a nossa mente muitas vezes organiza aquilo que vivemos.

Então acomode-se em um lugar agradável para ler esta história.


 O dia em que uma frase atravessou o coração

Era um dia comum no refeitório daquela igreja.

Após o almoço, as pessoas permaneciam conversando por horas. Entre um café e outro, compartilhavam histórias, experiências e projetos antes de retornarem ao trabalho ou às atividades ministeriais.

Em determinado momento, um líder da igreja conversava com um visitante.

— A sua filha está solteira? — perguntou o líder.

— Está sim. À espera de um homem de Deus — respondeu o pai, sorrindo.

— Traga-a aos cultos. Aqui temos muitos rapazes, homens de Deus.

Duas amigas ouviam a conversa.

Uma delas, em tom descontraído, comentou:

— Então me apresente também, pastor.

O líder sorriu.

— Claro! Você é uma mulher de Deus e certamente encontrará um homem abençoado.

Foi então que a outra amiga, com toda a simplicidade e inocência possível, disse:

— Eu também gostaria de conhecer alguém.

O líder olhou para ela e respondeu:

— Não.

E continuou:

— Não conheço o seu pai. Não sei quem ele é. Essas eu conheço. Sei de que família vieram e como são na fé. Sei que os pais são pastores de igreja. Você, eu não conheço o seu pai.

Naquele instante, algo aconteceu dentro daquela menina.

As pernas enfraqueceram. O coração acelerou. A garganta apertou. As lágrimas vieram aos olhos.

Ela tentou sorrir. Tentou fingir que estava tudo bem.

Mas não estava.

Saiu dali em silêncio e, mais tarde, chorou sozinha.

E uma única pergunta permanecia ecoando:

“Como isso aconteceu na frente de todos? Que humilhação!”


 O que acontece no corpo quando somos feridos emocionalmente?

Experiências como essa podem deixar marcas que vão muito além daquele momento.

Em alguns casos, aquilo que a literatura contemporânea tem chamado de “trauma religioso” não nasce da fé em si, mas das experiências emocionais vividas dentro dos ambientes de fé. Ele acontece quando alguém procura acolhimento, pertencimento, orientação espiritual ou consolo e encontra rejeição, julgamento, exclusão ou constrangimento.

A dor torna-se ainda mais profunda porque surge justamente no lugar onde o coração esperava encontrar amor, graça e compreensão.

Muitas vezes, a ferida não afasta a pessoa de Deus, mas cria marcas emocionais que permanecem por anos, exigindo tempo, maturidade e ressignificação para serem compreendidas.

Durante muitos anos, aquela cena permaneceu viva em sua memória.

Mas a vida continuou.

Ela cresceu, estudou e trabalhou. Construiu a sua própria história. Casou-se e mudou de país. Viveu alegrias e desafios, mas aquela frase continuava guardada em algum lugar do coração. Não porque acreditasse nela, mas porque nunca havia encontrado uma resposta.

Por muitas vezes pensou:

“Eu deveria ter dito quem era o meu pai.”

E o tempo passou.


 A verdade que permaneceu guardada por anos

Hoje conto esta história porque ela marcou profundamente a minha vida.

E sim.

Eu era aquela menina.

Hoje, muitos anos depois, Deus me deu a oportunidade de escrever aquilo que não consegui dizer naquele dia. Não para alimentar uma dor, mas para honrar um amor.


 Carta aberta ao meu pai

Pai,

Você é uma das melhores pessoas que eu já conheci.

Fez tudo o que estava ao seu alcance para cuidar de nós. Trabalhou durante anos para sustentar a sua família. Deu-nos estudo, alimento, livros, brinquedos e segurança. Mas, acima de tudo, deu-nos a sua presença.

Ao lado da minha mãe, vocês foram os melhores pais que uma filha poderia desejar.

Muitas crianças crescem sem conhecer o amor de um pai ou de uma mãe, mas eu tive a bênção de crescer cercada pelos dois.

E continuo tendo.

Hoje, já adulta, casada e com uma história construída, reconheço que muito do amor que existe em mim foi plantado por vocês.

Pai, você trabalhou até o limite das suas forças para cuidar da sua família. Se fosse necessário, teria dado a própria vida pelas suas filhas.

Foi um homem simples, honesto e trabalhador. Um homem que ensinou valores muito antes de ensiná-los com palavras.

Eu poderia escrever páginas inteiras sobre tudo aquilo que recebi de você, mas hoje quero resumir tudo em uma única frase:

Muito obrigada.

Você é um pai maravilhoso e foi Deus quem me deu você.

Não são os homens que definem quem você é. Não são cargos. Não são títulos. Não são reconhecimentos públicos ou aplausos.

O que revela a grandeza de um pai são os sacrifícios que ninguém vê, as noites mal dormidas, as preocupações silenciosas, as orações feitas em segredo. O seu amor constante.

Somente Deus conhece completamente o coração de um homem e é Ele quem concede a chancela mais importante que alguém pode receber: a de ser pai.

Eu te amo.

Sua filha.


 O que a Neurociência dos Afetos nos ensina sobre as marcas emocionais

A Neurociência dos Afetos nos mostra que não são apenas os fatos que permanecem em nossa memória. Permanecem os significados emocionais.

Algumas experiências são registradas com tanta intensidade que continuam vivas por muitos anos — não porque o acontecimento continua acontecendo, mas porque o afeto associado àquela experiência ainda permanece presente.

Foi isso que aconteceu comigo.

A dor não estava apenas na frase que ouvi. A dor estava no significado que ela carregava.

Naquele momento, não senti que estavam falando apenas sobre mim. Senti que estavam falando sobre o meu pai.

E quando amamos alguém profundamente, qualquer palavra dirigida a essa pessoa encontra lugar dentro do nosso coração.

Mas existe algo extraordinário sobre o funcionamento emocional humano: as memórias podem ser ressignificadas.

Não podemos mudar aquilo que aconteceu. Não podemos voltar ao passado, mas podemos construir novos significados para aquilo que vivemos.

Podemos transformar feridas em aprendizado, transformar silêncio em palavras ou dor em gratidão.

Talvez seja exatamente isso que este texto representa.

Aquela menina não voltou ao refeitório. Não respondeu naquele momento. Não explicou quem era o seu pai.

Mas hoje encontrou uma forma muito mais bonita de fazê-lo: honrando a sua história.

Porque a verdadeira cura não acontece quando esquecemos. Ela acontece quando a dor deixa de definir quem somos.

Ao escrever estas palavras, lembro-me de uma ordenança das Escrituras:

“Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.” — Êxodo 20:12

Hoje compreendo que honrar não é apenas obedecer.

É reconhecer. É agradecer. É valorizar aqueles que ajudaram a construir quem somos.

Talvez o maior ensinamento desta história não esteja na rejeição que vivi naquele dia, mas no amor que recebi durante toda a minha vida.

Porque uma frase pode ferir, mas uma vida inteira de amor tem força suficiente para sustentar uma pessoa para sempre.

Hoje compreendo que a voz mais importante da minha história não foi a de quem me julgou.

Foi a de quem me amou.

E essa voz continua ecoando em meu coração até hoje.

Porque, no fim, aquilo que permanece não é a dor.

É o amor.

E foi ele que escreveu o capítulo mais importante desta história aqui no Portal Rádio Fonte Viva.

Até a próxima edição de Entre Afetos e Histórias.

Com carinho,

Entre Afetos e Histórias
Por Márcia Morais Ávila

FONTE/CRÉDITOS: Coluna autoral enviada por Márcia Morais Ávila
Comentários:
Márcia Morais Ávila

Publicado por:

Márcia Morais Ávila

Sou Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e a Psicologia dos Hábitos, Neuroeducadora Corporativa e Teóloga. Minha missão é contribuir para a saúde emocional e a comunicação afetiva de mulheres 40+, por meio do Olhar Integrativo dos...

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