O Ceará está avançando para transformar uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em uma produção industrial de curativos biológicos feitos a partir da pele de tilápia. O projeto prevê a instalação de uma fábrica em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, com investimento divulgado de R$ 52 milhões.
A iniciativa dá um novo passo para uma tecnologia desenvolvida no Ceará há mais de uma década e que utiliza a pele da tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus) como biomaterial para aplicações médicas. A pesquisa é conduzida principalmente pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC, em parceria com outras instituições.
Tecnologia desenvolvida no Ceará
As pesquisas com a pele de tilápia começaram na UFC em 2014, inicialmente voltadas ao desenvolvimento de um curativo biológico para queimaduras. Ao longo dos anos, os pesquisadores estudaram propriedades do material e desenvolveram métodos de limpeza, processamento e esterilização.
Segundo a UFC, a pele possui características que favorecem sua utilização como biomaterial, entre elas o elevado teor de colágeno tipo 1, resistência mecânica e características de biocompatibilidade. O material pode ser processado para utilização como curativo oclusivo biológico.
A universidade também criou o primeiro Banco de Pele Animal do Brasil, que passou a processar e disponibilizar pele de tilápia para pesquisas. Em dezembro de 2024, o NPDM informou que a pesquisa havia chegado à terceira e última fase, com a preparação de mil unidades de pele coletadas em Jaguaribara.
Jaguaribara ganha papel estratégico
A escolha de Jaguaribara está diretamente relacionada à produção de tilápia no entorno do Açude Castanhão. A região já participa da cadeia de fornecimento de matéria-prima utilizada nas pesquisas desenvolvidas pela UFC.
A utilização da pele, que tradicionalmente pode ser descartada durante o processamento do peixe, também cria uma possibilidade de aproveitamento de um subproduto da piscicultura.
A própria UFC registra que as primeiras pesquisas envolveram visitas às pisciculturas do Castanhão para conhecer a produção de tilápia e estabelecer a logística de obtenção da pele.
Curativo pode reduzir dor e trocas durante o tratamento
A tecnologia desenvolvida pela UFC tem como uma de suas principais aplicações o tratamento de queimaduras. Estudos e informações institucionais da universidade apontam vantagens relacionadas à redução da dor, menor necessidade de trocas de curativos e redução do uso de determinados insumos médicos.
A pele também vem sendo estudada para outras aplicações. A UFC informa pesquisas envolvendo feridas crônicas, úlceras, procedimentos cirúrgicos e aplicações veterinárias, embora cada utilização dependa das respectivas pesquisas e avaliações necessárias.
É importante destacar que o biomaterial não deve ser apresentado como um tratamento disponível indistintamente ao público. A produção em escala comercial depende das etapas regulatórias e sanitárias aplicáveis ao produto.
Pesquisa entra na etapa de produção em escala
Em novembro de 2025, a UFC informou a assinatura de contrato com empresas para avançar na produção do curativo biológico a partir da pele de tilápia, depois de uma oferta pública destinada à exploração da tecnologia.
A universidade já vinha trabalhando para transformar o conhecimento científico acumulado em uma solução que pudesse chegar à população. Em fevereiro de 2025, a UFC abriu uma oferta pública para empresas interessadas em produzir e comercializar a pele de tilápia liofilizada destinada à preparação de curativos.
O projeto industrial anunciado representa, portanto, uma nova etapa de uma trajetória iniciada nos laboratórios da universidade e que agora busca alcançar escala de produção.
Ciência, saúde e economia circular
Além do potencial impacto na área da saúde, a iniciativa também chama atenção pelo aspecto econômico. A utilização de uma matéria-prima proveniente da cadeia da piscicultura pode agregar valor à produção de tilápia e estimular uma nova atividade industrial no interior do Ceará.
O projeto reúne, assim, três áreas estratégicas: pesquisa científica, inovação na saúde e aproveitamento de resíduos da produção de alimentos.
Para o Ceará, a expectativa é de que a transformação de uma tecnologia desenvolvida localmente em produto industrial contribua para aproximar a pesquisa acadêmica da população e fortalecer a capacidade de inovação do Estado.
A trajetória da pele de tilápia mostra como uma pesquisa iniciada há mais de dez anos pode avançar gradualmente da investigação científica para a transferência de tecnologia e, posteriormente, para uma possível produção em escala.
O que saber sobre o projeto
- Local previsto: Jaguaribara, Ceará;
- Região: Vale do Jaguaribe;
- Investimento divulgado: R$ 52 milhões;
- Tecnologia: curativo biológico produzido a partir da pele de tilápia;
- Origem da pesquisa: Universidade Federal do Ceará (UFC);
- Principal aplicação estudada: tratamento de queimaduras;
- Outras aplicações pesquisadas: diferentes tipos de feridas e procedimentos médicos e veterinários;
- Matéria-prima: pele da tilápia-do-Nilo;
- Situação: projeto em processo de avanço para produção industrial.
O projeto representa uma das iniciativas de inovação surgidas no Ceará que buscam transformar conhecimento produzido dentro da universidade em soluções com potencial de aplicação na saúde e impacto econômico regional.

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