Um novo estudo publicado na revista científica Sleep Medicine chamou atenção para uma possível relação entre a ingestão de vitamina D e o desempenho cognitivo. A pesquisa encontrou associação entre o consumo diário de 5.000 UI ou mais de vitamina D e melhores resultados em testes de cognição entre pessoas com comprometimento cognitivo leve e distúrbios do sono.
O resultado, porém, precisa ser interpretado com cautela. A pesquisa não demonstrou que a vitamina D previne a demência nem que doses de 5.000 UI devem ser utilizadas pela população em geral.
O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados à Emory University e envolveu 54 participantes, com idade média de aproximadamente 67 anos, que apresentavam comprometimento cognitivo leve (CCL) diagnosticado ou suspeito e alterações do sono.
O que os pesquisadores observaram
Para avaliar a capacidade cognitiva dos participantes, os pesquisadores utilizaram o Montreal Cognitive Assessment (MoCA), instrumento utilizado para avaliar diferentes aspectos da memória e do funcionamento cognitivo.
Após considerar fatores como idade, sexo, índice de massa corporal, escolaridade e tipo de vitamina D utilizada, os pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo de 5.000 UI ou mais por dia e uma pontuação mais alta no teste cognitivo.
Segundo a divulgação da pesquisa, os participantes que relataram essa ingestão apresentaram desempenho mais de 13% superior no MoCA em comparação com aqueles que não utilizavam vitamina D.
A associação, entretanto, foi observada em um grupo bastante específico: pessoas com comprometimento cognitivo leve e distúrbios do sono.
Isso significa que o resultado não pode ser automaticamente aplicado a pessoas saudáveis, jovens ou mesmo a todos os idosos.
Associação não significa prevenção da demência
Esse é o principal ponto que precisa ser entendido.
O estudo é transversal, ou seja, analisou os participantes em determinado momento e verificou a relação entre o consumo relatado de vitamina D e o desempenho cognitivo. Não foi um ensaio clínico que administrou 5.000 UI aos participantes para observar se eles deixariam de desenvolver demência.
Por isso, os resultados mostram uma associação, e não uma relação de causa e efeito.
Os próprios autores classificam os achados como exploratórios e destacam a necessidade de pesquisas de acompanhamento com amostras maiores para confirmar os resultados.
Assim, não é correto afirmar, com base nesse trabalho, que tomar altas doses de vitamina D reduz o risco de Alzheimer ou de outras formas de demência.
Por que o sono aparece nessa pesquisa?
O sono também é uma peça importante do estudo.
Os participantes apresentavam distúrbios do sono, condição que pode estar relacionada ao funcionamento cognitivo. Os pesquisadores destacam que alterações do sono são frequentes entre pessoas com comprometimento cognitivo leve e podem acompanhar processos de declínio cognitivo.
A vitamina D também vem sendo estudada em relação à qualidade do sono e ao ciclo sono-vigília. No entanto, essa relação ainda não está suficientemente estabelecida para afirmar que a suplementação de vitamina D seja um tratamento para distúrbios do sono ou uma estratégia comprovada contra demência.
5.000 UI: atenção à dose
Embora 5.000 UI seja o número que mais chama atenção na pesquisa, ele não deve ser interpretado como uma recomendação de suplementação.
De acordo com o National Institutes of Health (NIH), o limite superior de ingestão diária de vitamina D para adultos é de 4.000 UI por dia, considerando todas as fontes. O próprio órgão ressalta que profissionais de saúde podem recomendar doses superiores durante determinados períodos para tratar deficiência de vitamina D.
O excesso de vitamina D pode elevar demasiadamente a concentração de cálcio no sangue. Em situações graves, a toxicidade pode provocar náuseas, fraqueza, confusão, desidratação, cálculos renais e alterações cardíacas, entre outras complicações.
Por isso, não é recomendado aumentar a dose de vitamina D por conta própria com base apenas nos resultados desse estudo.
D2 e D3 apresentaram diferença?
Outro aspecto analisado pelos pesquisadores foi o tipo de vitamina D.
O estudo não encontrou diferença significativa no desempenho cognitivo entre os participantes que utilizavam vitamina D2 e aqueles que utilizavam vitamina D3.
Os pesquisadores também observaram que doses menores de vitamina D não apresentaram associação significativa com a pontuação cognitiva no grupo analisado.
Isso não significa, porém, que doses menores sejam ineficazes para outras funções do organismo. A vitamina D possui funções importantes relacionadas aos ossos, músculos e sistema nervoso, e a necessidade individual depende de diversos fatores.
O que essa pesquisa realmente acrescenta?
O principal valor do estudo está em levantar uma nova hipótese para investigação.
A pesquisa sugere que a relação entre vitamina D e cognição pode merecer atenção especial em pessoas que já apresentam comprometimento cognitivo leve associado a alterações do sono.
Mas ainda são necessárias pesquisas maiores e, principalmente, estudos capazes de acompanhar os participantes ao longo do tempo para determinar se a suplementação realmente produz algum efeito sobre a evolução do comprometimento cognitivo.
Portanto, o resultado é promissor para a pesquisa científica, mas ainda não representa uma recomendação clínica.
🧠 Em resumo
O estudo encontrou: associação entre 5.000 UI ou mais de vitamina D por dia e melhor desempenho cognitivo.
Quem participou: 54 pessoas com comprometimento cognitivo leve e distúrbios do sono.
O que foi avaliado: desempenho cognitivo por meio do teste MoCA.
O que não foi demonstrado: que a vitamina D previne Alzheimer ou demência.
Dose de 5.000 UI: não deve ser adotada por conta própria.
Próximo passo: realização de estudos maiores para confirmar os resultados.
Informação antes da suplementação
A vitamina D é um nutriente importante, mas mais não significa necessariamente melhor. A necessidade de suplementação e a dose adequada devem considerar fatores individuais, incluindo alimentação, exposição solar, exames laboratoriais, idade, condições de saúde e medicamentos utilizados.
Para quem está preocupado com memória, alterações cognitivas ou qualidade do sono, a recomendação é procurar avaliação profissional em vez de utilizar altas doses de suplementos por conta própria.
O estudo abre uma possibilidade interessante para a ciência: entender se a vitamina D pode ter algum papel na saúde cognitiva durante fases iniciais de alterações de memória e sono.
Por enquanto, porém, a conclusão mais segura é a mesma apresentada pelos próprios pesquisadores: os resultados são iniciais e precisam ser confirmados por estudos maiores.
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