Talvez o problema não seja apenas o que sentimos
Durante o Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental, somos convidados a olhar para aquilo que normalmente escondemos atrás da palavra "rotina": o cansaço, a ansiedade, a pressão, a solidão e a sensação de que precisamos continuar funcionando mesmo quando já não estamos bem.
Janeiro chega carregado de promessas.
Ano novo.
Vida nova.
Novos objetivos.
Novos hábitos.
Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece nas listas de metas:
como está a pessoa que precisa cumprir todas essas metas?
A vida moderna nos ensinou a funcionar
Há uma cena cada vez mais comum.
A pessoa acorda cansada, pega o celular antes mesmo de levantar, corre para o trabalho, passa horas diante de telas, resolve problemas, responde mensagens, administra contas, cuida da casa, cuida dos outros e, quando finalmente chega a noite, tenta descansar com a mesma cabeça que passou o dia inteiro trabalhando.
No dia seguinte, tudo começa novamente.
E quando o corpo pede pausa, muitas vezes respondemos com café.
Quando a mente pede silêncio, oferecemos mais uma tela.
Quando aparece o cansaço, chamamos de falta de disciplina.
Quando aparece a tristeza, dizemos que é preciso ser forte.
Até que um dia percebemos que não estamos exatamente vivendo.
Estamos apenas funcionando.
A virada está em uma pergunta
Talvez cuidar da saúde mental não seja apenas aprender a suportar melhor uma rotina difícil.
Talvez seja também perguntar se a rotina que construímos merece continuar sendo chamada de normal.
A ciência já nos mostra que saúde mental não é uma dimensão isolada do restante da vida. A OMS reconhece que diferentes fatores individuais, familiares, comunitários e sociais podem proteger ou prejudicar o bem-estar mental.
Sono, movimento, alimentação, relações e condições de vida fazem parte desse cenário.
Por isso, não existe uma cápsula capaz de organizar uma vida inteira.
Nem um alimento capaz de substituir descanso.
Nem uma vitamina capaz de resolver solidão.
Cuidar também é diminuir o peso
Existe uma contradição curiosa no nosso tempo.
Falamos cada vez mais sobre autocuidado, mas frequentemente transformamos o autocuidado em mais uma obrigação.
É preciso dormir oito horas.
Treinar.
Meditar.
Comer perfeitamente.
Ler.
Produzir.
Descansar.
Viajar.
Beber água.
Ter equilíbrio.
E, de repente, até descansar vira uma tarefa para cumprir.
Talvez o cuidado verdadeiro seja menos uma lista de obrigações e mais uma capacidade de perceber limites.
A atividade física, por exemplo, beneficia a saúde física e mental; uma alimentação saudável contribui para a saúde e o bem-estar; dormir adequadamente e manter vínculos sociais também fazem parte do autocuidado.
Mas tudo isso precisa caber dentro de uma vida real.
O que estamos ensinando para nós mesmos?
Talvez essa seja a grande questão do Janeiro Branco.
Não apenas:
"Como posso ficar melhor?"
Mas:
"Que tipo de vida estou construindo todos os dias?"
Porque há momentos em que a solução não é aumentar a resistência.
É diminuir a sobrecarga.
Não é exigir mais de si.
É reconhecer que ninguém deveria precisar adoecer para finalmente ter permissão para parar.
FRASE MEMORÁVEL
Às vezes, cuidar da mente não é aprender a suportar mais; é aprender a carregar menos.
Janeiro termina.
As campanhas passam.
Os calendários mudam.
Mas aquilo que sentimos continua conosco.
Por isso, talvez o maior compromisso de um novo ano não seja prometer que seremos mais produtivos, mais fortes ou mais eficientes.
Talvez seja simplesmente não abandonar a pessoa que existe por trás de todas essas exigências.
Convite à reflexão
Se você retirasse, por um instante, todas as cobranças da sua rotina, o que sobraria da vida que você realmente gostaria de viver?
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Coluna Opinião Viva
Por Marcos Rogério, diretor do Portal Rádio Fonte Viva
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