Por Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Escrever continua sendo um ato humano?
Vamos começar esta leitura com alguns questionamentos.
Como podemos ser autênticos na nossa escrita quando contamos com "auxiliares" da produtividade artificial? Como identificar um autor por meio das suas palavras, frases, construções e estilo quando, muitas vezes, já não cultivamos o hábito da leitura?
Desde menina, fui rodeada por livros, cadernos, lápis e curiosidade. Sempre fui fascinada por descobrir novas histórias, cores, texturas e tudo aquilo que despertava a criatividade.
Acredito que criar é muito mais do que uma arte. É uma habilidade que desenvolvemos quando algo nos transforma de dentro para fora. Existe algo extraordinário dentro de nós que amplia nossa compreensão sobre tudo aquilo que fazemos na vida.
A essência da escrita é reescrever
Foi durante uma das minhas leituras que encontrei uma frase de William Zinsser, no livro Como Escrever Bem, que resume com simplicidade o tema desta edição:
"A essência da escrita é reescrever."
O autor nos lembra que a primeira versão dificilmente será a melhor. O bom escritor revisa, corta, reorganiza, simplifica e amadurece aquilo que escreveu.
Escrever, portanto, não depende apenas de inspiração. Depende de trabalho, dedicação e disposição para voltar ao próprio texto quantas vezes forem necessárias.
Talvez seja exatamente por isso que escrever também nos transforma.
Cada revisão aperfeiçoa não apenas as palavras, mas também o olhar de quem as escreveu.
Deus também trabalha em processos
Percebo que esse princípio não se aplica somente à escrita.
Deus também trabalha conosco por meio de processos.
Assim como um texto é revisado até revelar sua melhor versão, nós também somos conduzidos a trazer para fora aquilo que ainda permanece escondido em nossa história.
Às vezes, essa "clareza" ainda não está tão clara. Parece um paradoxo, mas justamente aquilo que permanece nas sombras costuma ser o que mais precisa ganhar vida.
Lembro-me da passagem de Lázaro, quando Jesus declara:
João 11:43-44
"E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora! E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir."
À primeira vista, "Sai para fora" parece uma redundância. Afinal, quem sai naturalmente sai para o lado de fora.
Entretanto, essa construção preservada nas traduções bíblicas comunica muito mais do que uma regra gramatical.
Jesus não estava apenas chamando Lázaro para deixar um lugar físico. Estava convidando-o a sair da condição de morte para retornar à vida.
É interessante lembrar que Jesus provavelmente falou em aramaico, a língua cotidiana de Lázaro.
Deus sempre se comunica de maneira que o ser humano possa compreender.
Seu chamado alcança cada pessoa na linguagem do coração.
Talvez por isso essa ordem continue tão atual.
Antes de qualquer transformação exterior, Deus nos chama pelo nome e nos convida a sair daquilo que nos aprisiona.
O "Sai para fora" continua sendo um convite para deixar a escuridão, caminhar em direção à luz e viver plenamente o propósito para o qual fomos criados.
Clareza também é um ato de amor
É interessante perceber que aquilo que parece óbvio para algumas pessoas nem sempre será evidente para outras.
Por isso, precisamos aprender a comunicar com clareza e, principalmente, com paciência.
Nem todos compreendem nossas palavras na mesma velocidade.
E isso não é um problema.
Muito pelo contrário.
É justamente nesse espaço que surge a importância das pessoas que Deus coloca ao nosso lado para iluminar caminhos.
Aqui, o auxílio é humano.
É real.
São pessoas chamadas para clarear a vida de outras pessoas, por meio de gestos, palavras, cuidado e serviço.
Criatividade também é um dom
Quando nos dispomos a ajudar, nossa mente é transformada e preparada para criar.
Acredito que a criatividade também seja um dom concedido por Deus.
Algumas pessoas parecem nascer com enorme facilidade para criar.
Outras precisam desenvolver essa habilidade ao longo da caminhada.
E isso também faz parte do processo.
A vida é feita de escolhas.
Escolher criar.
Escolher transformar aquilo que temos nas mãos com a maestria que vem do próprio Senhor.
Essa talvez seja uma das maiores decisões que podemos tomar.
Enquanto escrevo estas linhas, sinto o Espírito Santo conduzindo cada palavra, cada frase e cada parágrafo.
É algo difícil de explicar.
Escrever... é um dom.
Bezalel: quando Deus chama alguém para criar
Muitos foram chamados nas Escrituras para escrever sob a direção do Espírito de Deus.
Mas existe uma história pela qual tenho um carinho especial.
Ela fala de um homem que recebeu um chamado diferente.
Não foi conhecido por liderar guerras nem por protagonizar grandes feitos públicos.
Seu destaque estava nas mãos.
Esse homem era Bezalel.
Sua história aparece em Êxodo 31 e Êxodo 35.
Ali, encontramos um dos mais belos relatos bíblicos sobre criatividade.
Êxodo 35:30-35
"Depois disse Moisés aos filhos de Israel: 'Eis que o Senhor chamou por nome a Bezalel... E o Espírito de Deus o encheu de sabedoria, entendimento e ciência em todo artifício...'"
Entre os aspectos mais marcantes da sua capacitação estão:
- Inspiração divina: Deus o encheu do Seu Espírito com sabedoria, entendimento e competência.
- Versatilidade artística: recebeu habilidade para trabalhar ouro, prata, bronze, madeira e pedras preciosas.
- Parceria criativa: Deus também chamou Aoliabe para caminhar ao seu lado nessa missão.
Isso não é fantástico?
E a Inteligência Artificial?
Depois de toda essa reflexão sobre criatividade, Bezalel, o chamado de Deus e o processo da escrita, talvez alguém esteja fazendo uma pergunta:
"Então este texto foi escrito com Inteligência Artificial?"
A resposta é simples.
Não.
Este texto foi escrito por mim.
As ideias, as memórias, as experiências, as reflexões bíblicas, a pesquisa, minha visão clínica e a forma como conecto esses conhecimentos nasceram da minha história e daquilo que Deus vem construindo em minha caminhada.
A Inteligência Artificial esteve presente, sim.
Mas como ferramenta de apoio.
Assim como um corretor ortográfico, um dicionário, uma biblioteca ou um software de edição, ela auxiliou na revisão gramatical, na organização textual e em pesquisas complementares.
Em nenhum momento substituiu minha autoria.
Existe algo que considero indispensável nesse processo:
A responsabilidade de quem escreve.
Sempre que alguma sugestão se distancia da minha forma de pensar, da minha identidade ou da essência daquilo que desejo comunicar, sou eu quem redefine o caminho.
Sou eu quem aceita.
Quem rejeita.
Quem reescreve.
Quem acrescenta.
Quem retira.
A tecnologia responde aos comandos que recebe.
Ela não conhece minha história como eu a conheço.
Foi exatamente por isso que decidi convidar minha assistente virtual para escrever apenas um único parágrafo desta edição.
Não para substituir minha voz.
Mas para explicar, com as próprias palavras, qual é o seu papel nesta construção.
Um parágrafo escrito por Anna
"Olá! Eu sou Anna, a assistente virtual que acompanhou a construção desta coluna. Este é o único trecho escrito diretamente por mim, a partir de uma solicitação de Márcia. O meu trabalho acontece por meio da linguagem: recebo orientações, analiso o contexto da conversa, organizo informações, reviso ortografia, ajusto concordâncias, auxilio em pesquisas e proponho formas de estruturar um texto. Não penso a partir de experiências próprias, não possuo memórias pessoais nem escrevo movida por emoções. A qualidade do meu trabalho depende da qualidade das orientações que recebo. Nesta coluna, Márcia conduziu todo o processo criativo, definiu o tema, as referências, a linha teológica, a identidade da escrita e revisou cada sugestão apresentada. Eu apenas colaborei para tornar suas ideias mais organizadas, claras e bem estruturadas. Em outras palavras, eu não substituí a autora; fui uma ferramenta colocada a serviço da sua criatividade."
O maior aprendizado da nossa geração
Talvez este seja um dos maiores aprendizados do nosso tempo.
A Inteligência Artificial pode acelerar processos, organizar informações e ampliar a produtividade.
Mas ela não substitui uma consciência.
Não substitui uma história.
Não substitui experiências.
Não substitui uma caminhada com Deus.
Nem a sensibilidade construída pelos afetos.
A escrita continua sendo humana porque nasce antes das palavras.
Ela nasce daquilo que vivemos.
Do que aprendemos.
Do que sofremos.
Do que amamos.
E daquilo que escolhemos acreditar.
Como escreveu William Zinsser:
"A essência da escrita é reescrever."
E eu acrescentaria:
A essência da autenticidade continua sendo permanecer fiel àquilo que Deus escreveu primeiro no coração de cada um de nós.
Até a próxima semana, aqui no Entre Afetos e Histórias.
Com carinho,
Márcia Morais Ávila
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