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Sexta-feira, 23 de Outubro 2026
ENTRE AFETOS E HISTÓRIAS

Outubro Rosa e o corpo da mulher: entre o medo e a consciência, cuidar também é um ato de fé

Uma reflexão sobre feminilidade, vergonha, autoconhecimento e dignidade, mostrando como a fé pode caminhar junto com a consciência corporal e o cuidado com a saúde da mulher.

Márcia Morais Ávila
Por Márcia Morais Ávila
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Outubro Rosa e o corpo da mulher: entre o medo e a consciência, cuidar também é um ato de fé
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Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista, especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos

Existem convites que recebemos como uma oportunidade. Outros chegam ao nosso coração como uma missão. Foi assim que me senti ao ser convidada para ministrar uma palestra numa igreja evangélica aqui nos Açores, em Portugal, lugar onde vivo atualmente. Diante de um grupo de mulheres, tive a oportunidade de levar uma mensagem de esperança, fé e consciência sobre o cancro da mama, ou câncer de mama, como dizemos no Brasil.

Falar sobre esse tema dentro de uma igreja foi muito especial para mim. Não apenas pela importância do Outubro Rosa, mas porque aquele encontro me permitiu aproximar duas dimensões que nunca deveriam caminhar separadas: a fé que sustenta a mulher e a consciência que a ajuda a cuidar da própria vida.

Entrei naquela igreja não apenas como palestrante, mas como mulher, teóloga, psicanalista e profissional com capacitação em Sexologia Clínica Cristã. Levei conhecimentos, experiências e reflexões, mas também levei a minha própria história. Falei sobre o medo, a vergonha, a identidade feminina, o cuidado com o corpo e a necessidade de renovarmos a nossa maneira de pensar.

Quando os números deixam de ser apenas números

A atualização mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão ligado ao Ministério da Saúde do Brasil, estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no país, entre 2026 e 2028. Isso representa uma taxa bruta estimada de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. Excluindo os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama corresponde a aproximadamente 30% dos novos casos de câncer entre as mulheres brasileiras.

Quando voltamos o olhar para o Nordeste, região onde nasci, a estimativa é de 17.130 novos casos por ano, com uma taxa bruta de 58,02 casos para cada 100 mil mulheres.

No Ceará, a minha terra natal, são estimados 3.250 novos casos de câncer de mama em 2026, correspondendo a uma taxa bruta de 67,83 casos para cada 100 mil mulheres.

Esses números são estimativas epidemiológicas. Não representam apenas tabelas ou percentuais. Por trás de cada número existe uma mulher, uma família, uma espera, uma pergunta, um medo, uma consulta e uma história que precisa ser acolhida.

Talvez algumas mulheres leiam esses dados e sintam vontade de mudar de assunto. Outras podem pensar: “Prefiro não saber.” Há também aquelas que evitam observar o próprio corpo porque têm medo de encontrar alguma alteração.

Entretanto, não procurar uma informação não faz com que a realidade deixe de existir. Muitas vezes, isso apenas prolonga a angústia e adia a possibilidade de receber orientação adequada.

O medo de descobrir e a vergonha de conhecer

Muitas mulheres aprenderam a cuidar de todos, mas não aprenderam a cuidar de si mesmas. Foram ensinadas a suportar, servir, permanecer fortes e silenciar aquilo que sentem.

Algumas convivem com o medo de fazer a mamografia. Outras sentem vergonha de falar sobre as mamas, de observar o próprio corpo ou de procurar um profissional de saúde. Há mulheres que chegam a sentir culpa ao tocar o próprio corpo para perceber se existe alguma alteração.

Essa vergonha não nasce no corpo. Ela é construída pelas mensagens que recebemos.

Quando uma menina aprende que determinadas partes do corpo só podem ser mencionadas como pecado, malícia ou provocação, ela pode crescer sem conseguir diferenciar sexualização de cuidado. E, quando tudo o que envolve o corpo feminino é tratado como indecente, até uma atitude de saúde pode ser vivida com culpa.

É nesse ponto que medo e preconceito começam a caminhar juntos.

O medo diz: “E se eu encontrar alguma coisa?”

A vergonha responde: “É melhor não tocar, não olhar e não falar.”

A mulher, então, evita o assunto. O silêncio proporciona um alívio momentâneo, mas a ansiedade permanece. Com o tempo, aquilo que deveria ser um gesto de cuidado transforma-se numa experiência ameaçadora.

Por isso, precisamos conversar sobre o corpo feminino sem vulgarizá-lo, mas também sem transformá-lo num lugar proibido.

A mama e os significados da feminilidade

A mama não representa apenas uma estrutura biológica. Na experiência emocional de muitas mulheres, ela pode estar relacionada à feminilidade, à maternidade, à amamentação, à sexualidade, à intimidade, à beleza, ao envelhecimento e à autoimagem.

Por isso, quando falamos sobre câncer de mama, não estamos a tocar apenas numa questão física. Estamos também a alcançar significados afetivos e culturais profundamente ligados à identidade.

O medo pode não estar somente na possibilidade de adoecer. Pode estar nas perguntas silenciosas:

“Continuarei a sentir-me mulher?”

“Como passarei a olhar para mim?”

“Serei amada e desejada?”

“O que acontecerá com a minha identidade se o meu corpo mudar?”

Essas perguntas não devem ser consideradas superficiais. Elas revelam o lugar simbólico ocupado pelo corpo na história de cada mulher.

Ao mesmo tempo, precisamos afirmar com clareza: a feminilidade de uma mulher não está armazenada nas suas mamas.

Uma cirurgia, uma cicatriz, uma mastectomia, uma histerectomia, a menopausa, o envelhecimento ou qualquer outra transformação corporal não retiram a sua dignidade nem apagam a sua identidade.

A mulher não deixa de ser mulher porque o seu corpo mudou.

O corpo pode atravessar perdas. A identidade pode enfrentar um período de reconstrução. A mulher pode viver um luto verdadeiro. Mas o seu valor não desaparece com aquilo que foi modificado ou retirado.

A partir da minha capacitação em Sexologia Clínica Cristã, compreendo que a sexualidade não pode ser reduzida ao ato sexual. Ela também envolve identidade, afetos, vínculos, limites, intimidade, história, percepção corporal e a maneira como cada pessoa se relaciona consigo mesma.

Conhecer o próprio corpo não significa sexualizá-lo.

Observar as mamas, perceber uma alteração, procurar avaliação e permitir um exame realizado com respeito não são atitudes de imoralidade. São manifestações de responsabilidade.

O Instituto Nacional de Câncer esclarece que a orientação atual não consiste em depender de uma técnica rígida de autoexame realizada mensalmente. A proposta é desenvolver consciência sobre a saúde das mamas: conhecer o que é habitual, observar e tocar quando a mulher se sentir confortável e procurar avaliação médica caso perceba uma alteração suspeita. Esse conhecimento não substitui a mamografia, o rastreamento nem a avaliação clínica.

Entre os sinais que precisam de avaliação estão nódulos persistentes, alterações na pele ou no mamilo, saída espontânea de líquido, mudanças na axila ou aumento progressivo da mama. Perceber algo diferente não confirma um diagnóstico, mas indica a necessidade de procurar um profissional de saúde.

A mulher não precisa observar o corpo com ansiedade, mas aprender a reconhecê-lo com naturalidade e consciência.

Uma noite que também me transformou

Naquela noite, nos Açores, percebi que não estava apenas a transmitir uma mensagem. Eu também estava a ser transformada por ela. Olhei para aquelas mulheres e pensei em tantas outras que carregam medos, aguardam resultados, enfrentam diagnósticos, convivem com mudanças no corpo ou precisam de coragem para marcar uma consulta.

Senti-me profundamente grata por falar sobre um tema tão delicado dentro de uma comunidade cristã. A igreja também pode ser um lugar de informação, acolhimento, escuta e esperança, onde a Palavra de Deus não aumenta a culpa, mas restaura a dignidade.

Saí daquele encontro com a certeza de que o Outubro Rosa precisa ser mais do que uma campanha marcada por laços e pela cor rosa. Ele deve abrir conversas, desfazer preconceitos e aproximar as mulheres do cuidado.

Talvez o primeiro passo não seja deixar de sentir medo, mas decidir que o medo já não governará todas as escolhas.

E você? Existe alguma crença, vergonha ou medo que tem impedido o seu cuidado? Qual pequeno passo pode dar hoje em direção à sua saúde?

Você tem valor. O seu corpo merece dignidade. A sua história merece acolhimento. E procurar ajuda também pode ser um ato de fé.

A conscientização é quando deixamos Deus renovar a nossa mente, o nosso entendimento, para receber o milagre da transformação.

Te vejo na próxima edição, aqui no Entre Afetos e Histórias, na coluna do Portal Fonte Viva.

Com carinho, Entre Afetos e Histórias.

Por Márcia Morais Ávila

FONTE/CRÉDITOS: Coluna autoral enviada por Márcia Morais Ávila
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Márcia Morais Ávila

Publicado por:

Márcia Morais Ávila

Sou Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e a Psicologia dos Hábitos, Neuroeducadora Corporativa e Teóloga. Minha missão é contribuir para a saúde emocional e a comunicação afetiva de mulheres 40+, por meio do Olhar Integrativo dos...

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