No Centro Histórico de Aquiraz, uma construção de aproximadamente três séculos permanece como testemunha de diferentes períodos da história do Ceará. Conhecida como Casa do Capitão-Mor, a edificação também aparece em registros como Casa dos Ouvidores e é considerada uma das construções históricas mais antigas do município.
O imóvel, localizado na Rua Capitão-Mor, integra o conjunto arquitetônico do entorno da Praça Cônego Araripe e está relacionado ao período em que Aquiraz ocupava uma posição central na organização administrativa e jurídica da Capitania do Ceará. Documentos oficiais de turismo do Estado classificam a Casa do Capitão-Mor ou Casa dos Ouvidores como a construção mais antiga da cidade, com cerca de 300 anos.
Apesar de sua importância histórica e de já ter passado por restauração, o espaço atualmente está fechado ao público, segundo apuração publicada em agosto de 2026.
Um patrimônio do século XVIII
A origem exata da construção ainda é objeto de estudos históricos.
A versão tradicional relaciona a casa ao Capitão-Mor Manoel da Fonseca Jaime. Documentação do Governo do Ceará registra que o imóvel pertenceu ao Capitão-Mor e que seu tombamento foi aprovado em 21 de março de 2006.
Pesquisas históricas mais recentes, porém, levantam outra possibilidade. O historiador Ronald Tavares aponta que a construção pode ter sido erguida por volta de 1728, pelo primeiro Ouvidor-Geral do Ceará, José Mendes Machado. Essa hipótese também ajuda a explicar a utilização dos nomes Casa dos Ouvidores e Casa do Capitão-Mor ao longo do tempo.
Essa diferença de interpretação não diminui a importância do imóvel. Pelo contrário: mostra que a própria casa ainda guarda questões históricas que continuam sendo estudadas.
Uma construção feita com técnicas antigas
A arquitetura da casa ajuda a contar essa história.
A edificação foi construída com taipa e madeira, utilizando técnicas tradicionais. Estudos sobre o patrimônio de Aquiraz registram elementos estruturais de madeira, incluindo pau-d'arco, carnaúba e aroeira, unidos em partes da estrutura por tiras de couro bovino.
O conjunto preserva características de uma arquitetura residencial do período colonial e constitui um dos poucos exemplares remanescentes desse período no município.
Para além da fachada, o valor histórico está também nos materiais e nas técnicas construtivas que sobreviveram ao longo de aproximadamente três séculos.
Tombamento e restauração
A importância histórica e arquitetônica levou o imóvel a ser protegido pelo Estado.
O tombamento foi aprovado em 21 de março de 2006 pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural.
Antes disso, o prédio havia enfrentado problemas de conservação. A casa passou por um processo de restauração em 2008 e foi posteriormente reaberta ao público. Segundo a apuração publicada em 2026, houve também uma nova reinauguração em 2018.
O próprio Governo do Ceará já havia registrado, em 2010, a entrega do patrimônio restaurado em Aquiraz.
Ou seja, a atual situação de fechamento não representa toda a história recente do imóvel. A Casa já foi restaurada e utilizada como espaço de visitação.
Quando a população poderá visitar novamente?
Essa é uma das principais questões que permanecem sem resposta pública clara.
Segundo a apuração publicada pelo O POVO, em 2025 chegaram a ser disponibilizadas visitas mediante agendamento, acompanhadas por servidores da área de cultura. Atualmente, entretanto, o espaço está fechado para visitação.
Até a publicação da reportagem consultada, não havia sido apresentada uma previsão clara para a reabertura.
A Secretaria da Cultura do Estado informou que, embora o imóvel seja tombado estadual, a manutenção do local é responsabilidade do município de Aquiraz. A reportagem também informou que procurou a Prefeitura para obter esclarecimentos sobre a situação do imóvel e eventuais projetos de restauração e reabertura, mas não recebeu resposta durante o período de apuração.
Por que manter a Casa aberta é importante?
A preservação de um patrimônio histórico não se resume à manutenção de paredes, portas e telhados.
A Casa do Capitão-Mor pode funcionar como um espaço de educação patrimonial, permitindo que moradores, estudantes e visitantes tenham contato direto com parte da história de Aquiraz e do Ceará.
Esse aspecto ganha ainda mais importância em uma cidade cuja história está diretamente ligada à formação administrativa do Estado.
Professores e pesquisadores ouvidos na apuração recente defendem justamente uma maior aproximação entre os espaços históricos e a população, com visitas guiadas e atividades educativas durante todo o ano, e não apenas em períodos comemorativos.
Aquiraz e o papel na história do Ceará
Aquiraz foi elevada à condição de vila no início do século XVIII e passou a concentrar estruturas administrativas e jurídicas importantes.
Com a criação da Ouvidoria, a cidade passou a reunir o ouvidor-geral e outros agentes ligados à Justiça. Esse período ajudou a estabelecer Aquiraz como um dos principais centros administrativos do Ceará colonial.
É nesse contexto que a Casa dos Ouvidores ganha relevância.
A construção não é apenas uma residência antiga. Ela faz parte dos vestígios materiais de um momento em que decisões administrativas e judiciais importantes eram tomadas a partir de Aquiraz.
Um patrimônio que precisa ser conhecido
A Casa do Capitão-Mor está inserida em um conjunto histórico que inclui outros importantes monumentos do Centro de Aquiraz, como a Igreja Matriz de São José de Ribamar, o antigo prédio da Câmara e Cadeia, hoje Museu Sacro, e o Mercado da Carne.
Documentos estaduais de planejamento turístico destacam esse conjunto arquitetônico como uma das áreas de maior relevância histórica do município.
Por isso, a discussão sobre a Casa vai além da situação de um único imóvel.
Ela envolve a maneira como Aquiraz preserva, apresenta e utiliza seu patrimônio histórico.
O que se sabe e o que ainda precisa ser esclarecido
Confirmado:
- a Casa do Capitão-Mor existe e está localizada no Centro Histórico de Aquiraz;
- possui aproximadamente 300 anos;
- também é conhecida como Casa dos Ouvidores;
- é considerada uma das construções mais antigas do município;
- possui relevância histórica e arquitetônica;
- foi tombada pelo Estado em 2006;
- passou por restauração;
- já recebeu visitantes;
- atualmente está fechada ao público.
Ainda precisa ser esclarecido:
- qual é a situação atual de conservação do imóvel;
- por que a visitação está suspensa;
- se existe um plano de manutenção ou nova restauração;
- se há previsão para reabertura;
- quais atividades culturais poderão ser realizadas no espaço;
- como o patrimônio poderá ser integrado de forma permanente ao turismo e à educação patrimonial do município.
Uma história que não deveria ficar atrás de portas fechadas
A Casa do Capitão-Mor atravessou mudanças políticas, sociais e urbanas durante quase três séculos.
Suas paredes de taipa e sua estrutura de madeira sobreviveram a gerações e continuam materializando uma parte importante da história de Aquiraz.
Mas patrimônio histórico não existe apenas para ser preservado fisicamente.
Também precisa ser conhecido, estudado e acessível à sociedade.
Enquanto a Casa permanece fechada, fica uma pergunta para o futuro: como transformar um patrimônio de quase 300 anos em um espaço vivo de memória, cultura, educação e turismo para Aquiraz?
A resposta depende de preservação adequada, planejamento e, principalmente, de uma política permanente de acesso da população ao patrimônio.
O Portal Rádio Fonte Viva continuará acompanhando a situação da Casa do Capitão-Mor e os próximos encaminhamentos relacionados à preservação e à eventual reabertura do espaço.
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