Tecendo palavras, memórias e fé
Eu escrevo, parafraseando Rubem Alves, como um tecelão que entrelaça fios para criar os seus tapetes. O escritor também tece: seus fios são as palavras, e delas nascem histórias.
Nos últimos dias, retomei a leitura de O Deus que Conheço, de Rubem Alves. A edição que leio, publicada em 2011, possui um significado especial para mim. Foi justamente naquele período, quando iniciava minha caminhada acadêmica, que conheci o autor e passei a aproximar-me de seus pensamentos e de sua escrita.
Ao longo dos capítulos, Rubem Alves nos convida a perceber Deus por meio da beleza, do amor, da sensibilidade, da linguagem, das críticas religiosas e do mistério da existência.
Ele afirma que carregamos um "bolso-Deus": um lugar simbólico onde guardamos aquilo que julgamos essencial, mas também nossas dúvidas, emoções, medos e perguntas sobre Deus.
Talvez seja justamente desse lugar que nasce a nossa compreensão da fé.
Conhecer Deus pela experiência
Continuando a inspiração de Rubem Alves, este texto também foi escrito com pedaços de mim.
Como ele afirma, "não há como falar de Deus sem falar de nós mesmos".
Foi dessa leitura que nasceram reflexões que passaram a fazer parte da minha história.
Entre tantos caminhos possíveis, escolhi falar sobre aquele por meio do qual conheci Deus de maneira mais profunda: o sofrimento.
Falar sobre a dor nunca é simples. É tocar em perdas, silêncios, ausências e perguntas que nem sempre encontram respostas.
Ainda assim, muitas vezes é justamente nesses lugares que deixamos de conhecer apenas o Deus sobre quem ouvimos falar para encontrar o Deus que caminha conosco.
A pedagogia de Deus
Ao concluir o Bacharelado em Teologia, apresentei meu Trabalho de Conclusão de Curso com o tema:
A Pedagogia de Deus através do sofrimento: o sofrimento como instrumento pedagógico nas mãos de Deus na transformação do caráter do cristão.
Naquele momento da minha vida, essa foi a lente que encontrei para interpretar a minha própria travessia.
No estudo, procurei compreender o sofrimento considerando o ser humano em suas dimensões física, emocional, social e espiritual.
Perguntas inevitáveis conduziram a pesquisa:
- Por que sofremos?
- O sofrimento é um castigo?
- Por que pessoas boas sofrem?
- Onde está Deus quando a dor nos alcança?
Busquei respostas dialogando com diferentes áreas do conhecimento.
Entre Nietzsche, Frankl e a Bíblia
O estudo aproximou Filosofia, Psicologia e Teologia.
Em A Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche apresenta a famosa parábola do "homem louco", anunciando que "Deus está morto". Sua provocação não tratava da morte literal de Deus, mas da crise espiritual e moral de uma sociedade que havia perdido suas referências.
Essa leitura levou-me a refletir sobre qual Deus buscamos conhecer e de que forma nossas crenças — ou incredulidades — podem distorcer essa imagem.
Também encontrei em Viktor Frankl um caminho importante.
Ao desenvolver a Logoterapia, especialmente a partir das experiências vividas nos campos de concentração nazistas, Frankl mostrou que o ser humano pode encontrar sentido mesmo quando não consegue mudar as circunstâncias ao seu redor.
Esses pensamentos fortaleceram uma convicção que permanece comigo até hoje: diferentes áreas do conhecimento podem dialogar quando buscamos compreender o sofrimento, a fé e o sentido da existência.
Quando a dor se torna sala de aula
Naquele período compreendi que o sofrimento poderia tornar-se uma espécie de sala de aula.
Não porque a dor seja boa.
Nem porque todo sofrimento represente um castigo de Deus.
Mas porque, durante a travessia, podemos aprender sobre fé, dependência, perseverança, obediência e propósito.
Passei a enxergar Deus como o Mestre que me ensinava enquanto eu caminhava por estradas que jamais teria escolhido.
Ao escrever meu TCC, percebi que não falava apenas sobre personagens bíblicos ou conceitos teológicos.
Falava também sobre mim.
Eu havia conhecido Jesus poucos anos antes e buscava compreender como um Deus que me amava permitia experiências tão dolorosas.
Foi nesse processo que comecei a enxergar minha própria vida como um vaso despedaçado sendo novamente moldado pelas mãos do Oleiro.
O Deus presente na travessia
Meu Trabalho de Conclusão de Curso tornou-se mais do que uma exigência acadêmica.
Foi uma tentativa de atribuir sentido ao que eu havia vivido.
Cada capítulo carregava fragmentos da minha própria história.
Naquele momento, conheci Deus como Aquele que sustenta no deserto, permanece na travessia e transforma a dor em amadurecimento.
Minha conclusão encontrou eco nas palavras de Romanos 8:28:
"Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."
Isso nunca significou que todas as experiências fossem boas.
Significou, sim, que Deus é capaz de ressignificar até aquilo que um dia nos feriu.
Tudo o que escrevo são pedaços de mim
Rubem Alves escreveu:
"Tudo o que escrevo são pedaços de mim."
Essa frase traduz aquilo em que acredito.
Quando escrevo, compartilho fragmentos da minha caminhada, dos meus afetos e da maneira como aprendi a reconhecer Deus ao longo da vida.
Muitas vezes escrevo porque sinto que Deus coloca uma palavra em meu coração.
Compartilho essa palavra na esperança de que alguém seja alcançado pelo Seu amor, acolhido pelo Seu cuidado e fortalecido pela Sua presença.
O Deus que Conheço nos lembra que conhecer Deus não é apenas falar sobre Ele.
É caminhar com Ele.
É encontrá-Lo nas experiências da vida.
É permitir que Sua presença transforme a nossa história.
Que também possamos fazer nossa a oração de Jó:
"Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem." (Jó 42:5)
Que possamos conhecer Deus não apenas pelo que ouvimos a Seu respeito, mas pela experiência viva e transformadora da Sua presença.
Se esta reflexão despertou em você o desejo de conhecer a obra de Rubem Alves, recomendo a leitura de O Deus que Conheço. É um livro para ser apreciado sem pressa, permitindo que cada página desperte novas perguntas sobre a fé, a vida e o Deus que aprendemos a enxergar.
Nos encontramos na próxima edição da coluna Entre Afetos e Histórias, aqui no Portal Rádio Fonte Viva.
Com carinho,
Márcia Morais Ávila
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