Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Quando foi a última vez que você parou sem se sentir culpada?
Vivemos em uma sociedade que associa movimento a progresso, produtividade a valor e descanso a perda de tempo. Parece que precisamos estar constantemente fazendo alguma coisa para provar que somos necessárias, importantes e responsáveis.
Para muitas mulheres, essa cobrança é ainda mais profunda. Elas cuidam da casa, da família, do trabalho, dos relacionamentos, dos compromissos da igreja e das necessidades emocionais de todos ao redor. Sustentam muitas histórias e responsabilidades, mas raramente encontram espaço para escutar o que está acontecendo dentro de si.
Quando finalmente tentam parar, a culpa aparece.
“Eu deveria estar fazendo alguma coisa.”
“Não posso deixar tudo.”
“Se eu parar, quem continuará sustentando aquilo que depende de mim?”
Entretanto, nem toda pausa representa abandono. Há momentos em que parar é justamente o movimento necessário para não nos afastarmos de nós mesmas, da nossa saúde emocional e do propósito que Deus colocou em nosso coração.
Talvez seja preciso compreender que existem pausas que não interrompem o propósito. Algumas pausas nos devolvem a ele.
Jesus também procurava lugares silenciosos
Os Evangelhos mostram que Jesus, mesmo cercado por pessoas, necessidades e responsabilidades, retirava-se para lugares solitários.
“Jesus, porém, retirava-se para lugares solitários e orava.” (Lucas 5:16)
Ele ensinava, curava, acolhia, alimentava multidões e caminhava com os discípulos. Havia sempre alguém esperando uma palavra, uma resposta ou um milagre. Ainda assim, Jesus reconhecia o momento de se afastar do movimento exterior para permanecer em comunhão com o Pai.
Em outras passagens, encontramos Jesus em momentos de recolhimento que não representavam fuga ou desistência, mas espaços de intimidade, escuta, fortalecimento e discernimento.
Jesus não se retirava porque havia perdido o propósito. Ele se retirava porque conhecia o propósito e sabia que não poderia permitir que o barulho das necessidades ao redor substituísse a direção recebida do Pai.
Essa compreensão também pode transformar a maneira como enxergamos nossos períodos de silêncio. Nem todo afastamento é abandono. Nem todo silêncio é vazio.
Nem toda pausa significa que perdemos a direção. Às vezes, precisamos nos afastar de alguns ruídos para voltar a escutar aquilo que realmente importa.
A culpa de parar
Durante muito tempo, as mulheres foram ensinadas a relacionar o próprio valor à capacidade de servir, cuidar, resolver e permanecer disponíveis. Assim, descansar pode provocar uma sensação de inutilidade, egoísmo ou irresponsabilidade.
A mulher se acostuma a dizer:
“Eu consigo.”
“Deixa comigo.”
“Eu resolvo.”
“Depois eu descanso.”
O problema é que esse “depois” pode nunca chegar.
Enquanto continua atendendo às necessidades de todos, ela vai adiando a própria escuta. Ignora o cansaço, silencia a tristeza, disfarça a irritação e tenta convencer a si mesma de que ainda consegue suportar mais um pouco.
A atividade constante pode preencher a agenda, mas não consegue preencher os espaços internos que pedem sentido.
Parar, nesse contexto, não significa deixar de se importar com as pessoas ou abandonar as responsabilidades. Significa reconhecer que também existe alguém que precisa de cuidado: a própria mulher que, tantas vezes, se coloca por último.
Quando o corpo começa a falar
Antes de conseguirmos explicar racionalmente o que está acontecendo, muitas experiências afetivas já estão sendo percebidas pelo corpo.
Sentimos um aperto, uma agitação, uma tensão, um cansaço ou uma angústia e, somente depois, tentamos organizar essas sensações em pensamentos e palavras. O corpo percebe movimentos emocionais que a consciência ainda não conseguiu compreender completamente.
Por isso, podemos dizer que, muitas vezes, sentimos antes de conseguirmos pensar sobre o que sentimos.
Quando não paramos, não refletimos. Quando não refletimos, não nomeamos. Quando não nomeamos, encontramos dificuldade para elaborar aquilo que estamos vivendo.
Escutar o corpo não significa obedecer imediatamente a toda emoção ou impulso. Significa reconhecer que os sentimentos carregam informações importantes sobre necessidades, limites, vínculos e experiências.
Talvez seja justamente nesse espaço de escuta que começamos a perceber o que precisa ser acolhido, o que já não pode continuar da mesma maneira e aquilo que precisa ser reorganizado dentro de nós.
O medo do recomeço
Parar também pode revelar que alguma coisa precisa mudar. É nesse momento que o medo do recomeço aparece.
Recomeçar não significa apenas iniciar uma nova etapa. Muitas vezes, exige reconhecer que uma forma antiga de viver já não consegue sustentar quem estamos nos tornando.
Existe o medo de fazer uma escolha errada, decepcionar pessoas, perder vínculos, abandonar uma imagem construída durante anos ou descobrir que não sabemos exatamente para onde seguir.
Existe também o medo de ficar sozinha.
Esse medo pode tornar o recomeço emocionalmente insuportável, porque nos faz imaginar que, ao deixarmos um lugar conhecido, ficaremos sem proteção, direção ou pertencimento.
Entretanto, a Palavra de Deus nos conduz a uma compreensão diferente:
“No amor não há temor; antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo; e quem teme não é perfeito em amor.” (1 João 4:18)
O perfeito amor não é um amor humano sem falhas. É o amor de Deus conhecido, recebido e amadurecido em nós.
No contexto dessa passagem, João fala sobre o medo relacionado ao castigo. Mas esse ensinamento também revela a segurança que nasce quando compreendemos que somos verdadeiramente amadas por Deus.
O perfeito amor não elimina imediatamente todas as nossas inseguranças. Ele transforma o lugar de onde fazemos as nossas escolhas.
Já não escolhemos apenas para fugir do medo. Passamos a escolher sustentadas pela certeza da presença de Deus.
O período sabático como reencontro
Um período sabático não precisa ser compreendido somente como a interrupção formal de um trabalho ou de uma atividade. Ele também pode representar um tempo intencional de diminuição do ritmo, escuta, reorganização e discernimento.
É um espaço em que deixamos de perguntar apenas: “O que ainda preciso fazer?”
E começamos a perguntar: “O que Deus deseja me mostrar?”
O período sabático não é necessariamente um tempo de respostas imediatas. Pode ser um tempo de elaboração.
Redescobrir o propósito não significa obrigatoriamente encontrar uma missão completamente nova. Pode significar retornar à essência daquilo que Deus já havia colocado em nós, mas que ficou escondido sob o excesso de responsabilidades, expectativas e ruídos.
Talvez o propósito não tenha desaparecido.
Talvez nós apenas tenhamos nos distanciado da capacidade de escutá-lo.
É por isso que a pausa pode se tornar um tempo de reencontro. Não necessariamente porque todas as respostas surgirão de uma vez, mas porque, ao diminuir o ritmo, abrimos espaço para reconhecer o que estamos vivendo e discernir os próximos passos.
Entre o medo e o amor
Entre o medo e o amor existe uma decisão.
Podemos permitir que o medo nos paralise, nos mantenha presas à produtividade e nos faça acreditar que descansar é desistir. Ou podemos permitir que o amor de Deus nos conduza para um lugar de confiança, cuidado e discernimento.
Escolher o amor não significa negar o medo. Significa reconhecer o medo sem entregar a ele o governo da nossa vida.
Talvez você ainda não saiba qual será o próximo passo. Talvez o recomeço pareça grande demais. Talvez o seu corpo esteja pedindo uma pausa que a sua mente ainda tenta evitar.
Comece escutando.
-
O que o seu corpo está tentando lhe dizer?
-
Que sentimento você ainda não conseguiu nomear?
-
Qual culpa a impede de descansar?
-
O que precisa ser reorganizado?
O propósito não é construído apenas nos momentos de movimento. Ele também é reencontrado nos lugares silenciosos, quando o coração diminui o ritmo, a mente encontra espaço para refletir e a presença de Deus nos recorda que não estamos sozinhas.
Para a sua reflexão, finalizo esta edição com uma certeza que toca profundamente o meu coração e que agora compartilho com você:
Entre o medo e o amor, escolha permanecer no amor. Existem pausas que não interrompem a caminhada; existem pausas que nos preparam para continuar. E existem silêncios nos quais Deus nos devolve ao propósito.
Até a próxima edição de Entre Afetos e Histórias, aqui, na coluna do Portal Rádio Fonte Viva.
Com carinho, Entre Afetos e Histórias.
Por Márcia Morais Ávila
Comentários: