Márcia Morais Ávila
Neuropsicanalista, especialista em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos
Nos Açores, o outono se anuncia no ritmo da chuva, no sopro dos ventos e naquele frio ameno que nos convida a desacelerar e escutar o que a estação desperta em nós. Para acompanhar esses dias e seguir rumo ao inverno europeu, trago uma excelente dica de leitura: A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig. Um livro para começar agora e levar consigo nesse caminho de reflexão, descobertas e novos sentidos.
Conheci essa obra em um clube de leitura do qual participei em meados deste ano. A experiência me fez perceber como é valioso compartilhar histórias: uma leitura pode nos tocar de novas maneiras quando se encontra com as experiências e percepções de outras pessoas.
Ler, para mim, é como me aventurar pela imaginação. Sou levada pelo texto do autor e, ao mesmo tempo, crio a minha própria versão das personagens. Mesmo com as descrições e falas presentes no livro, cada pessoa imagina a partir da própria visão de mundo. É fantástico perceber essa capacidade que todos temos e que, tantas vezes, só precisa de espaço para ser exercitada.
Na história de Matt Haig, Nora Seed chega a uma biblioteca situada entre a vida e a morte. Cada livro lhe oferece a possibilidade de experimentar uma vida que poderia ter vivido se tivesse feito outras escolhas. Ao percorrer esses caminhos, ela passa a olhar de outra maneira para seus arrependimentos e para aquilo que dá sentido à sua existência.
A mensagem que mais me tocou foi “I AM ALIVE”, ou, em português, “EU ESTOU VIVA”. Quando cheguei a esse momento, senti essas palavras como um grito da minha própria alma. Para mim, elas expressam a certeza de que ainda há vida, desejo e possibilidade dentro de nós, mesmo depois de atravessarmos arrependimentos e momentos difíceis.
Quantas vezes vemos a nossa história se desenrolar diante de nós sem poder voltar atrás, mas ainda somos capazes de pensar no que podemos melhorar, nas estratégias que podemos mudar e no que precisamos deixar para trás? Essa frase me fez refletir sobre como podemos correr ao encontro do que é mais importante e encontrar propósito naquilo que fazemos.
Entre os arrependimentos e as possibilidades da vida
Na Biblioteca da Meia-Noite, as prateleiras parecem guardar inúmeras possibilidades. A Sra. Elm explica que os livros abrem passagem para diferentes versões da vida de Nora, construídas a partir de escolhas que ela poderia ter feito. Há também um volume singular: o Livro dos Arrependimentos. Enquanto Nora o observa, alguns arrependimentos parecem ganhar ou perder força, como se a maneira de olhar para o passado também pudesse mudar.
Ao abrir os outros livros, Nora experimenta vidas que poderiam ter sido suas, ligadas a decisões, desejos e oportunidades que ficaram para trás. Mas cada possibilidade traz sua própria realidade, com alegrias, perdas e dificuldades. Nora não precisa apenas imaginar: e se eu tivesse escolhido diferente? Ela precisa descobrir se aquelas vidas, vistas de perto, realmente lhe pertencem e fazem sentido para ela.
Perto do desfecho, a biblioteca começa a desmoronar. As luzes falham, as prateleiras estremecem e os livros pegam fogo. Com a ajuda da Sra. Elm, Nora procura o livro de sua vida original. Quando o encontra, vê que as páginas estão em branco. Então, em meio ao caos, escreve: “I AM ALIVE”.
Nora não pronuncia essas palavras como um grito: ela as escreve. Para mim, porém, esse gesto tem a força de um grito da alma, uma afirmação de que sua história ainda pode continuar e de que há vida à sua espera.
A Psicanálise também nos ajuda a pensar nos diferentes planos que habitam a experiência humana. Winnicott não trata o mundo interno e a realidade externa como dois territórios isolados. Entre eles, propõe uma área intermediária de experiência, na qual podemos brincar, imaginar e criar, mantendo aquilo que sentimos em diálogo com o mundo que nos rodeia. É nesse espaço potencial que uma história pode ser, ao mesmo tempo, a história de Nora e uma experiência que cada leitora constrói a partir de si.
Freud, por sua vez, nos lembra que nem tudo o que sentimos ou desejamos está imediatamente acessível à consciência. Há desejos, lembranças e conflitos inconscientes que também participam da nossa vida psíquica. Ao acompanharmos Nora, podemos nos aproximar de perguntas que talvez já estivessem em nós: O que lamento? O que desejo? O que considero essencial para uma vida que faça sentido?
Isso não significa que a personagem represente cada leitora, mas que o encontro com ela pode abrir caminhos para escutarmos algo da nossa própria experiência.
Talvez seja aí que encontremos propósito: quando voltamos a participar da nossa história, em vez de apenas assistir a ela. A cada segundo, existe a possibilidade de arriscar, escolher um novo caminho ou mudar o rumo das coisas. Nem sempre podemos reescrever o passado, mas podemos decidir como queremos seguir.
Quando uma história encontra a nossa própria história
Como neuropsicanalista, consigo olhar para a vida através dos afetos e observar como sou afetada pelas situações que me rodeiam. Esse exercício de atenção às emoções me ajuda a pensar com mais clareza, sem perder a possibilidade de sentir.
Mesmo numa leitura proposta pelo clube do livro, consigo distinguir a história da personagem da minha própria história. E, ainda assim, posso viver a leitura por dentro: deixar que ela me toque e, ao refletir sobre o meu momento, reconhecer o que se move em mim.
Assim, passado e presente podem se encontrar, enquanto o futuro se abre como horizonte, aquele a quem entrego a minha esperança.
Afinal, que parte da sua vida você gostaria de revisitar, mudar ou simplesmente contemplar com mais carinho?
A Biblioteca da Meia-Noite é um chacoalhão na alma e uma ótima oportunidade de revisitar o que passou: aquilo que foi importante e até o que talvez não tenha parecido tanto, mas que marcou a nossa forma de ver e viver o presente.
Convido você a revisitar a sua história sem culpa e sem julgamento. Apenas sinta o que realmente está sentindo. Relembre as pessoas, os momentos, as conversas e a vida que passou. Permita que essas lembranças lhe ensinem a olhar mais para si mesma e a reconhecer o caminho que já percorreu. E confie: lá na frente, você poderá chegar a novos lugares e, ainda assim, continuará aprendendo a seguir em frente.
Grite: “ESTOU VIVA!” Permita-se viver e sentir.
Te vejo na próxima edição, aqui no Entre Afetos e Histórias, na coluna do Portal Fonte Viva.
Com carinho, Entre Afetos e Histórias
Por Márcia Morais Ávila
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